Quando a escola deixa de ensinar a viver em democracia
Durante muito tempo acreditámos numa ideia simples: mais educação significaria mais democracia. A expansão da escolaridade, o acesso crescente ao ensino superior e a valorização social da escola seriam uma espécie de vacina contra o autoritarismo e o extremismo político. A realidade política europeia das últimas décadas — e também a portuguesa — obriga-nos hoje a olhar para essa convicção com mais cautela.
O crescimento recente da extrema-direita em vários países, incluindo Portugal, mostra que a relação entre educação e democracia é mais complexa do que supúnhamos. Não basta que as sociedades sejam mais escolarizadas. Importa perguntar que tipo de educação estamos a promover e que valores estruturam efetivamente as políticas educativas.
Nas últimas três décadas, a educação foi progressivamente reconfigurada por uma orientação cada vez mais economicista das políticas educativas. Organizações internacionais, rankings e avaliações comparativas passaram a desempenhar um papel central na definição das prioridades educativas, em particular através de instrumentos como o PISA, promovido pela OCDE. O sucesso de um sistema educativo começou a medir-se sobretudo pela sua capacidade de produzir competências úteis ao crescimento económico e à competitividade global.
Esta mudança teve consequências profundas. A linguagem da educação passou a ser dominada por conceitos como competências, desempenho, resultados e empregabilidade. A........
