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Ninguém larga a mão de ninguém

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08.09.2026

Há uma pergunta que atravessa silenciosamente o campo das artes performativas em Portugal e que talvez seja tempo de formular de um modo menos confortável: quem escolhe quem fica? Não se trata apenas de saber quem é programado, quem recebe uma co-produção, quem estreia num teatro ou festival, quem é convidado para uma residência ou entra num circuito internacional. Trata-se de perceber como essas decisões, acumuladas no tempo, produzem visibilidade, reconhecimento, legitimidade e carreira, e como a repetição das ausências pode produzir apagamento, descontinuidade e precariedade.

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Programar é escolher. E escolher é também excluir. Esta não é uma acusação: é uma condição estrutural de qualquer programação. E é um convite a olhar para nós mesmos, com transparência. O problema começa quando esquecemos a responsabilidade inerente à escolha, sobretudo em estruturas financiadas, total ou parcialmente, por recursos públicos.

Em Portugal, grande parte da criação contemporânea depende de uma arquitectura de afinidades, de apoios, residências, co-produções, festivais, teatros, centros culturais, redes e apresentações. Não é apenas circulação de obras: é construção de percursos profissionais. Ser escolhido uma vez pode significar uma oportunidade; ser escolhido consecutivamente pode permitir construir uma carreira. Não ser escolhido durante anos pode significar desaparecer do campo de visão, mesmo quando o trabalho continua a existir.

Um criador que vê sucessivamente recusadas as suas propostas não perde apenas uma apresentação. Pode perder co-produção, residência, rendimento e condições para desenvolver a obra seguinte. Pode perder, finalmente, a própria possibilidade de continuar e a sua sobrevivência ou mesmo o sentido de existir literalmente.

Programadores e curadores são mais do que mediadores entre artistas e públicos: são agentes de distribuição de recursos, legitimidade e futuro. Quem é programado acumula capital simbólico. Quem é co-produzido acumula condições de produção. Quem circula acumula circulação. Quem é visto é mais facilmente visto........

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