O prenúncio de um (des)acordo?
Recentemente, fui convidado pela CNN-Porto para comentar os desenvolvimentos no Golfo Pérsico, nomeadamente as negociações entre os EUA e o Irão. Tive a possibilidade de expressar umas ideias que desenvolvo agora, já depois da resposta iraniana (IRNA, Al-Jazeera) à proposta americana. Segundo o que se sabe:
O Irão respondeu com o fim das hostilidades e garantia de segurança marítima no Golfo durante 30 dias;
Os temas estruturais (nuclear, sanções e ativos congelados) ficam para discussões posteriores dependentes da manutenção da trégua.
Trata-se de um acordo frágil e precário.
1 Israel não tem qualquer interesse em que um acordo seja fixado e, especialmente, que seja duradouro.
Desde o início das operações militares conjuntas entre os EUA e Israel contra o Irão, tornou‑se evidente que a convergência estratégica inicial deu lugar a uma crescente dissonância. Essa desarmonia não resulta apenas de diferenças táticas no teatro militar, mas sobretudo do que está a ser negociado no Paquistão. Washington parece disposto a aceitar um compromisso que estabilize a região e reduza o risco de escalada, enquanto Israel vê qualquer acordo como um mecanismo que, inevitavelmente, legitima a sobrevivência do regime iraniano e congela apenas temporariamente uma ameaça que considera existencial.
O ponto central é precisamente esse: para Israel, o problema não é apenas a capacidade nuclear do Irão, mas o próprio caráter teocrático do regime. A ameaça existencial não nasceu com as centrifugadoras; nasceu com a revolução de 1979. A teocracia iraniana transformou a hostilidade a Israel num elemento identitário, ideológico e mobilizador. Mesmo que o programa nuclear fosse eliminado, a estrutura política que sustenta essa hostilidade permaneceria intacta. Daí que, para Israel, um acordo técnico sobre enriquecimento de urânio seja insuficiente. Trata o sintoma, não a causa. A capacidade nuclear é perigosa, sem dúvida, mas é a natureza do regime que torna essa capacidade intolerável.
É neste quadro que a posição dos EUA se torna problemática para Israel. Donald Trump, apesar da retórica agressiva, não demonstra intenção de promover uma mudança de regime no Irão. Pelo contrário, parece aceitar a continuidade da teocracia desde que esta aceite limites operacionais ao seu programa nuclear. Para Israel, isto é incompreensível: manter o regime é manter a ameaça. Além disso, há um elemento político interno que raramente é discutido, mas que é decisivo. O desaparecimento da teocracia iraniana, assim como a eventual emergência de um regime mais secular ou pragmático, não teria efeitos profundos no ecossistema político israelita? A direita ultraconservadora e religiosa, que se alimenta da perceção de cerco e de........
