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O Nó Central da Nova Ordem Euro-Atlântica

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20.02.2026

A geografia é um destino, mas a política é a escolha consciente do que fazer com ele. Durante décadas, a visão nacional sobre os Açores foi limitada por uma lente de “extensão atlântica”, um arquipélago de importância histórica, mas frequentemente tratado como uma periferia economicamente dependente e geograficamente isolada. No entanto, o Projeto de Resolução recentemente apresentado pelo deputado Pedro Ferreira, no Parlamento dos Açores, propõe uma rutura necessária com esta passividade. Ao recomendar que a Região assuma a sua centralidade na arquitetura de defesa transatlântica e europeia, a Iniciativa Liberal toca no ponto fulcral da modernização das nossas instituições: a transformação da nossa posição no mapa em prosperidade real e segurança partilhada.

O modelo de gestão excessivamente centralizado em Lisboa tem funcionado, demasiadas vezes, como um filtro que retarda o potencial das regiões autónomas. As decisões críticas sobre o futuro da Base das Lajes ou a gestão do mar profundo não podem continuar a ser vistas apenas sob o prisma da diplomacia bilateral clássica ou de interesses conjunturais da capital. O que este Projeto de Resolução introduz é uma visão pragmática e ambiciosa, onde os Açores deixam de ser a periferia de Portugal para serem compreendidos como o nó central da União Europeia no Atlântico. No coração dos fluxos de dados que atravessam os cabos submarinos e sustentam a economia digital do continente, a proteção e rentabilização desta infraestrutura exige uma coordenação que ultrapassa a escala nacional e se insere plenamente num quadro de cooperação europeia de segurança e defesa.

Esta visão não beneficia apenas o arquipélago; ela redefine o papel do próprio país no projeto europeu. Portugal tem passado décadas a tentar provar a sua relevância através do cumprimento de metas orçamentais, mas a nossa verdadeira mais-valia para a Europa é geopolítica. Numa União que ambiciona uma autonomia estratégica real, Portugal deixa de ser um Estado na borda do continente para se tornar o pilar central de uma soberania partilhada no Atlântico. É esta escala de integração, onde a defesa e a segurança das infraestruturas críticas são geridas como um bem comum europeu, que permite a Portugal projetar uma influência que, isoladamente, seria inalcançável.

O projeto apresentado não se limita a pedir uma presença militar estática; propõe a criação de um verdadeiro ecossistema tecnológico. Ao recomendar a integração dos Açores em projetos inovadores de escala europeia, como o Fundo Europeu de Defesa, abre-se a porta a investimentos em áreas de vanguarda, da cibersegurança à vigilância marítima e tecnologias espaciais. Para uma visão liberal de futuro, isto representa a máxima eficiência: utilizar a segurança como um motor de inovação e emprego qualificado, fixando jovens talentos nas ilhas através da captação de investimento privado e de parcerias internacionais. Como bem sublinhou Pedro Ferreira, a questão é se queremos continuar a ser um território de passagem ou se preferimos ser protagonistas estratégicos.

Se queremos celebrar os cinquenta anos de Autonomia com os olhos postos no futuro, temos de parar de olhar para o mar como um fosso que nos separa e passar a vê-lo como a plataforma que nos torna indispensáveis. O futuro dos Açores, e de Portugal, exige esta ambição de escala europeia e uma inserção inteligente no espaço euro-atlântico. É tempo de liderarmos a partir do centro do oceano, provando que a geografia, quando aliada à visão política correta, é o nosso maior ativo económico e diplomático.

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