A Poesia que cria Clero é uma Traição
Não sou o maior leitor de poesia, mas à medida que o tempo passa tenho-me dedicado mais. Faço por lê-la em voz alta. Aliás, como sou um pregador inclino-me para achar que qualquer texto que não se leia em voz alta fracassou (é curioso que o Kierkegaard tinha a mesma opinião e, no entanto, por vezes é difícil lê-lo de boca aberta ou fechada). Este é o meu credo poético e protestante: se o texto não funciona oralmente, está morto. Quando se lê um texto dá para ver se o autor o leu em voz alta. Acho uma irresponsabilidade publicar sem esse cuidado.
A Bíblia, que estudo continuamente por ser pregador, está cheia de poesia. Até antes de me dedicar mais à poesia, já vivia cercado dela. Mas reconheço que costumava achar a poesia uma espécie de propriedade que me estava vedada e sobretudo por razões sociais. Deixem-me tentar explicar: a partir do 12.º ano ganhei amigos que liam poesia e que o faziam de um modo não tão diferente assim de como a Bíblia era lida na Igreja. Isso inquietou-me porque era como se a poesia criasse uma espécie de religião alternativa, na qual eu me sentia do lado de fora.
Sejamos sinceros: geralmente os fãs de poesia lêem-na de um modo irritante e afectado, como se fossem a Joana D’Arc sem a fogueira. Não quero exagerar na minha má vontade protestante, mas impaciento-me com........
