Seguro não meteu a esquerda na gaveta
Quando a batalha presidencial começou a entrar na sua fase decisiva, António José Seguro fugiu dos rótulos que o queriam colocar como candidato da esquerda. Num entrevista ao jornal Público a duas semanas do início dos debates, houve até um momento constrangedor em que, após três questões sobre o assunto, qual negação de Pedro, o então candidato rejeitou assumir-se como um “homem de esquerda” e rejeitou ser colocado em gavetas. Os seus críticos à esquerda logo aproveitaram para lembrar a cena do filme Aprile, de Nani Moretti, em que o realizador faz dele próprio, e assiste ao debate entre o candidato da direita, Silvio Berlusconi, e o da esquerda, Massimo D’Alema. Irritado, no sofá enquanto assiste ao duelo, Moretti irrita-se e, por duas vezes, grita para a televisão: “Diz qualquer coisa de esquerda!”
Essas críticas porventura acertaram no realizador, mas não no filme. É que a resistência de Seguro a assumir o seu esquerdismo, além de ser tático (que inegavelmente foi), partia de uma espécie de dilema ideológico que encaixa melhor noutro filme de Moretti, a Palombella Rossa. No filme, Michele Apicella, líder do Partido Comunista Italiano e jogador de pólo aquático, perde a memória. Ele sabe que é comunista, mas não se lembra porquê, o que o leva a partir do zero e a questionar toda a sua identidade ideológica. Todo o filme é uma grande metáfora à situação da esquerda italiana nos anos 1990, mas há um momento do jogo de Pólo Aquático que é particularmente simbólico: quando Michele, interpretado por Moretti, hesita entre atirar a bola para a esquerda ou para a direita e acaba por falhar e perder o jogo.
António José Seguro, ainda durante a primeira volta, corrigiu imediatamente a hesitação, disse até que tinha sido uma infelicidade, e assumiu que vinha da “esquerda moderada e moderna”. Seguro parecia ter absorvido aquilo que gritou o Michele na Palombella Rossa: “As palavras importam!” Também em entrevista ao Observador, já mais próximo do primeiro escrutínio, Seguro assumia ser um candidato que “vem do centro-esquerda”. Na segunda volta era preciso conquistar o centro e a direita, e voltou a insistir que mais importante que saber de onde vem é saber para onde quer ir: o centro. E o lugar comum: ser o Presidente de........
