menu_open Columnists
We use cookies to provide some features and experiences in QOSHE

More information  .  Close

A propósito da memória digital

31 0
01.09.2026

O meu avô Aureliano, médico de profissão, avô por via paterna, tinha a fotografia como a sua grande paixão. Fotógrafo amador, são dele as melhores memórias da família de um certo tempo em que ele era o patriarca. Como dermatologista, construiu ao longo de décadas um espólio impressionante de fotografia médica, que guardava em diapositivos meticulosamente organizados. Penso que uma das suas fotos lhe valeu um prémio internacional, que o levou à Suíça durante um mês. Na casa da minha avó materna no Douro, as paredes tinham retratos de pessoas que nunca conheci, familiares com histórias que me foram contadas, mas que hoje já esqueci, e não faz mal, a vida mudou, e essas histórias ficaram com quem as viveu, porque a vida é efémera e são poucas as coisas que merecem perpetuar-se na memória do tempo. As paredes de casa dos meus pais permanecem forradas de livros, que contam histórias, e são elas a fonte de memória que vale a pena guardar, a par do que permanece perdido em gavetas que por vezes tenho a curiosidade de abrir.

Li algures, numa revista, que não temos uma câmara dentro da cabeça, que recordar é inventar outra vez, e pensei no meu avô e na minha avó. De cada vez que víamos os álbuns, algo de novo aparecia, e não garanto que as versões das várias histórias mantivessem grande coerência entre si. Esquecemos, graças a Deus, esquecemos, e é o esquecimento que nos vai limando as arestas dos dias, que deixa morrer com decência as pessoas que fomos, porque uma memória que nada perde, li isso também, acaba por não compreender coisa nenhuma, afogada na minúcia e na análise de cada segundo, de cada frase, de tudo e de todos.

No tempo em que vivemos, de repente, decidimos mudar as regras do jogo, e está a........

© Observador