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A Grande Heresia

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01.11.2025

Frase do dia: “Estou firmemente convencido de que a Reforma do século XVI foi, tanto quanto uma coisa humana pode ser, um mal puro e sem mistura.” – G.K. Chesterton

A Reforma protestante, que de Reforma não teve nada, foi o início do longo e inexorável suicídio da Europa. Bem sabemos que “Europa”, nos dias que correm, é um termo de múltiplas significações. Mais recentemente, tem designado, por antonomásia, a própria União Europeia enquanto suposta comunidade de “valores”, mais do que um continente. Para que não haja dúvidas, e uma vez que detestaríamos ser acoimados de estrénuos defensores da união das bandeirinhas, a acepção que aqui se tem de Europa é a que foi dada pelo grande Hillaire Belloc: a Europa é a fé e a fé é a Europa.

Este artigo não será propriamente ecuménico nem curto — defeitos ou méritos pelos quais apresentamos desculpas de antemão.

A Igreja sempre teve de se digladiar com heresias, de tal maneira que, como escreveu Chesterton, nunca houve nada tão perigoso ou entusiasmante como a Ortodoxia. Desde Ireneu, com o seu Adversus Haereses, até ao surgimento de Lutero, são inúmeros os movimentos heréticos que assolaram a Igreja Católica.

Mais próximos de Lutero, temos, por exemplo, o bogomilismo, o catarismo (movimento que foi exterminado pela Cruzada Albigense), o conciliarismo, os Irmãos do Espírito Livre (uma variante bizarra dos adamitas, que davam vazão a toda a espécie de carnalidade), as beguinas e os begardos, os fraticelli, os valdenses, entre muitos outros. Muitos deles irmanavam-se num ideal de pobreza evangélica e na defesa de um retorno à simplicidade apostólica, e alguns já demonstravam sinais de um protestantismo avant la lettre, sobretudo os que rejeitavam qualquer autoridade pastoral e doutrinal da Igreja ou mesmo qualquer intermediação entre o indivíduo e Deus. Por influência de movimentos milenaristas (os joaquinitas terão sido os mais expressivos), também não era raro assistir a multidões de flagelantes a rasgar em sautor as costas, convencidos de que o fim dos tempos estava próximo. Muitos recitavam Mt 4:17: Pœnitentiam agite: appropinquavit enim regnum cælorum (Arrependei-vos, porque está próximo o reino dos céus). Este versículo, à guisa de overture teológica, também é mencionado na 1.ª das 95 teses de Lutero.

Sobre as infames 95 teses, diz a tradição protestante (por mais contraditório que seja juntar ambos os termos) que Martinho Lutero, monge agostiniano saxão, tê-las-á pregado na porta da Igreja do Castelo de Vitemberga a 31 de Outubro de 1517. Esta história é, no entanto, um mito criado por Philip Melanchtnon, amigo e sucessor de Lutero, numa biografia escrita 30 anos depois do acontecimento e publicada pouco após a morte do heresiarca, a Historia de vita et actis reverendissimi viri D. Martini Lutheri verae theologiae doctoris. A verdade é mais comezinha: num tom muito devoto, Lutero endereçou uma carta muito humilde a Albrecht von Brandenburg, arcebispo de Mainz, à qual anexou as 95 teses. É importante salientar que, contrariamente ao que se pode pensar, em nenhuma delas Lutero questionou a autoridade do Papa. As teses, que tanta tinta fizeram correr, mais não foram do que proposições para uma disputatio académica sobre práticas abusivas na venda de indulgências, já que Lutero não questionava a legitimidade da venda das indulgências em si. As teses foram, pois, teses para um debate, nada mais. Porque sim, a Igreja debatia. E muito.

Esta aparente graciosidade luterana cedo mudaria. Assim que percebeu que podia contar com o apoio dos grandes nobres alemães, Lutero não tardou a vilipendiar a Igreja, chegando mesmo a queimar a bula Exurge Domine do Papa Leão X. Os dados estavam lançados. Passado pouco tempo, Lutero, já para lá de excomungado, defenderia o uso de toda a brutalidade necessária para exterminar, na grande revolta de 1524-1525, os camponeses alemães que ele próprio havia instigado uns anos antes. O seu escrito “Contra os Camponeses Assaltantes e Assassinos” não envelheceu bem.

É que, como escreveu Leão X, o javali da floresta tinha entrado na vinha do Senhor. As coisas só pioraram.

Ninguém conseguia prever o que o futuro reservava. Durante milénio e meio, a Igreja havia asfixiado, decisiva e incontestavelmente, inúmeras heresias ou manifestações de religiosidade centrífugas. Fiel detentora das chaves de São Pedro, tinha erguido uma Civilização onde apenas havia os escombros de Roma. Criara universidades, construíra hospitais, orfanatos e catedrais e levantara um edifício de conhecimento até então desconhecido. Conservara, alumbrando, o melhor da........

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