Habitação: uma emergência nacional
As manifestações pela habitação voltaram às ruas e grande parte do debate público inicial concentrou-se na atuação policial sobre os manifestantes. É importante esclarecer o que aconteceu. Mas seria lamentável que a discussão ficasse por aí. Porque aquilo que levou milhares de pessoas à rua permanece. A habitação é hoje, provavelmente, o principal problema económico e social do país. Só não há mais manifestações e conflitualidade pois o nosso Estado de bem-estar, ao contrário de outros, assenta ainda nas estruturas familiares. Já aqui escrevi, há alguns anos, que estávamos perante uma bomba-relógio. Infelizmente, ela não foi desarmadilhada.
Os números falam por si. Portugal é o país da União Europeia onde mais tem aumentado o índice de preço da habitação. Entre junho de 2025 e 2026, ocupamos o lugar cimeiro com um aumento de 16,5% (ver aqui dados do EUROSTAT). A renda mediana dos novos contratos celebrados segue também uma trajetória aceleradamente ascendente, crescendo no mesmo período homólogo de um ano 10,7% (INE), sendo que na grande Lisboa, Madeira, Setúbal, Algarve e Porto os aumentos são superiores. Mas mais importante que as estatísticas são as consequências sociais. Muitos jovens, mesmo quando trabalham, continuam em casa dos pais não porque queiram, mas porque não conseguem pagar uma renda nem adquirir casa (ver aqui os dados). Para jovens provenientes de famílias desfavorecidas, e crescentemente da classe média, surge outra desigualdade: podem ter qualificações para entrar numa universidade em Lisboa, Porto ou Coimbra, mas não condições económicas para a frequentar, porque não conseguem pagar um quarto. Adiar a autonomia significa também adiar decisões fundamentais da vida. Dificilmente será indiferente para a formação de família e para a natalidade que dois jovens, mesmo empregados, não consigam encontrar uma casa onde iniciar uma vida em comum. Os dados que dispomos sobre a situação dos jovens e do mercado de habitação indiciam uma situação de emergência nacional e de uma grave situação de injustiça intergeracional que se tem agravado e que urge ser corrigida.
A primeira coisa que devemos reconhecer é que não existe uma medida mágica para resolver o problema. O mercado habitacional resulta do encontro de uma oferta relativamente rígida, sobretudo no curto prazo, com diferentes procuras que competem entre si. A oferta resulta de duas dimensões diferentes. Por um lado da variação do stock habitacional existente, por outro da disposição,........
