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Pequena meditação sobre o despojamento da luz

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12.09.2026

Pouco menos de um século após a sua fundação, Madinat al-Zahra foi destruída. Diziam alguns que Abderramão III a mandara erguer em memória do grande amor da sua vida; outros preferiam acreditar que a cidade nascera de um cálculo astronómico, obedecendo à geometria das estrelas, aos movimentos da luz e às secretas leis do céu. Estava rodeada de laranjeiras, e na Primavera o aroma da flor de laranjeira espalhava-se pelos pátios, pelas casas e pelas levadas como uma espécie de promessa. As águas atravessavam-na segundo desenhos concêntricos, ora visíveis, ora escondidos, e talvez houvesse quem julgasse que a própria cidade possuía um coração, irrigado por essas veias claras.

No ano de 1010 da era cristã, os berberes entraram em Madinat al-Zahra e destruíram-na. Os inimigos do Califado de Córdova não eram numerosos, mas sabiam esperar. Odiavam os banhos públicos, os canteiros de rosas e prímulas, as ameixeiras, as amendoeiras, as oliveiras. Odiavam sobretudo a biblioteca. Não se tratava de um ódio nascido da admiração frustrada, nem sequer da inveja, pois muitos dos seus chefes jamais haviam visto uma biblioteca e desconheciam o que significa passar uma tarde diante de uma página aberta, ouvindo a voz de alguém que morreu há séculos e que, apesar disso, ainda parece saber o nosso nome.

Respondiam apenas ao velho apelo da fitna, esse vento de guerra que começa por soprar por entre as torres e acaba por se deter sobre os corpos. Primeiro ouviram-se os gritos, confundidos com o relinchar dos cavalos e o estalar das árvores partidas. Depois, três ou quatro camponeses, aturdidos de medo, imploraram piedade. Houve cavalos em debandada, pomares revolvidos, portas arrombadas, e por fim uma carga de espadas erguidas. Os invasores avançaram possuídos por aquela falsa convicção de serem as mãos e os braços de Deus, como se o céu tivesse necessidade da violência humana para cumprir os seus desígnios.

A biblioteca era mais larga do que alta e abria-se para um pátio de ciprestes e palmeiras. Tinham instalado havia pouco persianas de palma-da-Índia,........

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