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Do imprestável e da invenção das folhas

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22.08.2026

Quando Cai Lun, o inventor do papel, era já velho, desprovido de dentes e coxo em consequência de uma queda, foi convidado para o Jardim das Pereiras em Flor por um dos cinco eruditos que dele cuidavam. Cada um deles era o guardião de uma pétala das flores dessas célebres árvores, como se a sabedoria pudesse sobreviver repartida entre mãos pacientes, ou como se toda a ciência humana exigisse pequenas fragilidades vegetais para não se tornar demasiado soberba.

No interior daquele lugar ameno, destinado ao repouso e à lenta circulação do saber, erguia-se uma biblioteca de bambu. Era frágil, pequena, quase provisória. Nela dormitava apenas um livro de cada vez. Escolhido ao acaso entre outros volumes vindos de bibliotecas distantes, podia ser O Livro das Libélulas Vermelhas, O Catálogo dos Céus ou Os Sonhos do Senhor Tigre. Passava de mão em mão, e cada leitor recebia dele um breve fragmento, que os demais escutavam e comentavam. Não havia pressa em chegar ao fim, porque sabiam que o fim de um livro raramente coincide com o fim daquilo que nele se começou a escutar.

Na Primavera, o canto dos papa-figos e dos rouxinóis desprendia, aqui e ali, flores das pereiras. No Outono, liam poesia enquanto bebiam chá verde. No Inverno, preferiam licor de arroz e sumo de groselhas-pretas, cujas cores pareciam conservar dentro de si vagas memórias de sol. Quando ninguém visitava a biblioteca, esta permanecia geralmente vazia. Os seus frequentadores, atentos à sabedoria do Tao, não temiam o nada nem o silêncio que o acompanha. Sabiam que o vazio não é apenas aquilo que falta: é também o espaço onde uma coisa pode chegar a ser vista.

Por vezes, o livro escolhido permanecia ali uma ou duas noites, protegido por um estojo de seda. Quando o proprietário vinha buscá-lo, surpreendia-se por os ideogramas não acusarem solidão nem abandono. Talvez os sinais escritos compreendessem melhor do que nós que toda a espera possui a sua respiração e que nenhuma página se encontra inteiramente só enquanto houver no mundo alguém disposto a abri-la.

A biblioteca........

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