O Estado não é neutro. Nunca foi.
Não é preciso haver maus políticos para existirem portas giratórias, cronismo ou nepotismo.
Basta existirem incentivos certos, instituições fracas e natureza humana normal.
A pergunta que importa aqui fazer é por que razão o tráfico de influências, as portas giratórias, o cronismo e o nepotismo não são acidentes políticos, mas riscos estruturais das democracias.
Em praticamente todos os ciclos políticos portugueses repete-se o mesmo padrão: mudanças nas empresas públicas, recomposição de estruturas dirigentes e intermédias do Estado, nomeações para gabinetes, conselhos de administração e organismos reguladores. O habitual.
O vocabulário institucional fala de “confiança política”, alinhamento estratégico ou renovação de equipas.
O vocabulário público fala de outra coisa: portas giratórias, tráfico de influências, cronismo, nepotismo e “jobs for the boys”.
Mais uma vez, o debate habitual tende a ser moral. Fala-se de caráter, cultura política ou falta de ética. Mas a ciência política comparada sugere-nos que esta leitura é bastante incompleta porque o problema raramente é apenas moral. É estrutural. Vejamos.
O Estado como arena de distribuição de poder e recursos
Na teoria política clássica, o Estado é concebido como árbitro neutro do interesse coletivo. Na prática histórica, raramente funcionou assim.
Grande parte dos sistemas políticos humanos aproximou-se mais de modelos patrimoniais onde o poder político é usado para consolidar redes........
