A Banalização do Mal
Há fenómenos que não entram de rompante na vida das sociedades. Instalam-se devagar, quase sem ruído, até deixarem de ser percebidos como problema. A banalização do mal é um desses fenómenos. Não porque o mal tenha desaparecido, mas porque mudou de forma. Já não se impõe pela violência explícita nem se apresenta com rosto ameaçador. Pelo contrário: surge com linguagem cuidada, intenções nobres e discursos que soam bem ao ouvido. E é precisamente aí que se torna mais difícil de reconhecer.
Quando Hannah Arendt usou a expressão “banalidade do mal”, não estava a relativizar a gravidade do mal, mas a sublinhar algo mais inquietante: o mal pode tornar-se rotineiro quando as pessoas deixam de pensar criticamente sobre aquilo que fazem, aceitam ou repetem. Não é preciso ódio declarado; basta a suspensão do juízo. Basta a adaptação confortável ao que “é assim”.
Essa intuição continua desconcertantemente atual. Vivemos num tempo em que quase tudo se explica, quase tudo se justifica, quase tudo se torna aceitável desde que seja apresentado com a linguagem certa. O mal não desapareceu; foi normalizado. Já não choca porque já não se chama pelo nome. E quando algo deixa de ser nomeado, deixa também de ser combatido.
Uma das grandes palavras do nosso tempo é “liberdade”. Invoca-se para justificar comportamentos, escolhas individuais e orientações colectivas. A liberdade tornou-se um argumento final, uma espécie de palavra-chave que encerra qualquer debate. Mas raramente se pergunta o que se entende por liberdade ou qual o seu sentido. Confunde-se frequentemente liberdade com ausência de limites, como se qualquer limite fosse, por definição, uma forma de opressão.
Ora, a tradição filosófica sempre foi mais exigente. A liberdade nunca foi entendida apenas como possibilidade de escolher, mas como........
