O Mundo fora dos eixos
Vivemos um momento em que o mapa mundi parece estar a arder pelas pontas. Se olharmos para a cronologia recente, a sensação não é apenas de instabilidade, mas de que as instituições criadas para manter a paz no pós-1945, a ONU, os tribunais internacionais e os acordos de não-proliferação, estão a tornar-se meras notas de rodapé ou, pior, instrumentos seletivos de poder. O mundo não está apenas a mudar. Está a sair da ordem.
O Eclipse da Soberania: do Vetor Nuclear ao Negócio do Império
A ordem internacional de 1945 não foi um projeto de idealismo puro, mas um mecanismo de sobrevivência. O Conselho de Segurança e o seu controverso poder de veto foram o preço pragmático para evitar que o mundo, traumatizado pelo Holocausto, se autodestruísse num inverno nuclear. O veto era o reconhecimento de que, sem as potências à mesa, a paz seria impossível. A guerra na Ucrânia expôs a paralisia terminal deste modelo. Quando um membro permanente do Conselho de Segurança, detentor do poder de veto, se torna o agressor, o sistema de 1945 deixa de ser um árbitro para ser um escudo de impunidade. A Ucrânia prova que o Direito Internacional, no seu estado atual, é incapaz de travar a vontade de potência de quem ajudou a escrever as suas regras Contudo, o sistema desenhado para gerir o poder dos Estados está a falhar perante o surgimento de um novo tipo de soberania: a corporativa.
Recentemente, emergiu uma tese que exige análise: o regresso do Venture Colonialism. Como teoriza Philip Stern em Empire, Incorporated, o Império Britânico não foi apenas obra de diplomatas, mas um modelo de negócio. Hoje, assistimos à reedição deste modelo, mas com uma assimetria geopolítica preocupante: a Lua deixou de ser um símbolo de conquista científica para se tornar a nova fronteira do extrativismo corporativo. Na nova corrida espacial, enfrentamos dois modelos de “Empresa-Império”: de um lado, o eixo sino-russo, onde as empresas são extensões diretas do Estado, do outro, o modelo ocidental, onde o Estado delega a sua capacidade tecnológica e a exploração de recursos a figuras como Elon Musk. Esta privatização da soberania coloca o Ocidente numa posição ambígua: dependemos de “xerifes” privados para a........
