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A Escravatura não tem dono… tem História

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31.03.2026

Durante séculos, o tráfico transatlântico de escravos foi uma das maiores tragédias da história da humanidade. Milhões de pessoas foram arrancadas das suas terras, despojadas da sua identidade e reduzidas a mercadoria. Portugal, como uma das primeiras potências marítimas globais, teve um papel central nesse sistema, e esse facto não pode, nem deve, ser negado.

Negar seria desonesto. Mas simplificar também o é.

A recente resolução da Assembleia-Geral da ONU, que classifica o tráfico de escravos como “o crime mais grave contra a humanidade” e apela a reparações históricas, reacendeu um debate antigo: como devemos olhar para este passado? Com memória, certamente. Com responsabilidade, também. Mas, acima de tudo, com rigor.

A História não se escreve a partir de uma única perspetiva moral. Escreve-se com factos, mesmo quando são incómodos.

É inegável que o sistema atlântico de escravatura atingiu uma escala industrial sem precedentes sob domínio europeu. Mas também é um facto histórico que esse sistema assentou, em grande parte, numa estrutura de captura e comércio já existente em várias regiões de África. Durante séculos, reinos e elites africanas participaram ativamente na captura, transporte e venda de outros africanos, muitas vezes rivais, em troca de bens, armas ou prestígio político.

Isto não diminui a responsabilidade europeia. Mas impede que a análise seja intelectualmente honesta se ignorar metade da equação.

A escravatura não nasceu com Portugal. Existiu na Antiguidade, no mundo romano, no mundo islâmico, em África, na Ásia. E, tragicamente, continua a existir hoje, sob outras formas, em várias regiões do mundo. O que o tráfico atlântico fez foi amplificar, mecanizar e globalizar um sistema que já existia,........

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