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O deepfake político não quer enganar, quer habituar

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22.02.2026

Há uma diferença entre um boato e uma ameaça. O boato quer que acreditemos. A ameaça quer que nos acostumemos. E é por isso que um vídeo curto que circulou na Índia, feito com recurso a inteligência artificial, merece mais atenção do que a inevitável discussão sobre “ser verdadeiro ou falso”.

Partilhado nas redes e depois apagado, o vídeo mostra um líder político de Assam a manusear uma arma e, na sequência, a disparar sobre a imagem de homens muçulmanos, acompanhada de slogans como “No Mercy” e mensagens sobre “limpar” o território de “estrangeiros”. Mesmo para quem já viu de tudo online, há aqui um salto qualitativo. Não é apenas propaganda. É violência performativa, em formato de meme, com estética de bravura e com um destinatário social bem identificado.

É tentador tratar isto como mais um episódio de “desinformação” e seguir em frente. Só que este caso não se encaixa bem no modelo clássico da mentira política, em que alguém fabrica um vídeo para fingir que um adversário disse ou fez algo que nunca aconteceu. O objetivo aqui não parece ser enganar indecisos, nem falsificar um evento específico. O objetivo mais plausível é deslocar o limite do aceitável, habituar o público a ver a minoria como alvo e o governante como executor simbólico de uma punição. O dano não está no facto inventado. Está na normalização do imaginário.

A literatura sobre deepfakes políticos ajuda a perceber porquê. Os estudos mostram efeitos irregulares na........

© Observador