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Se não têm pão, que comam excedente

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14.04.2026

Existe algo de desconcertante em ver um ministro das Finanças com a experiência de Joaquim Miranda Sarmento a celebrar efusivamente o excedente de 0,7% registado em 2025 (“absolutamente histórico”) para, dias depois, assistirmos a Luís Montenegro a antecipar o quase inevitável regresso dos défices já este ano. As duas realidades não são necessariamente contraditórias — em teoria, é bom acumular excedentes orçamentais para responder aos momentos mais difíceis. Mas é no tom e no sentido de oportunidade das mensagens de um e de outro que se pode antecipar uma tensão difícil de resolver.

No passado, Joaquim Miranda Sarmento, que começou com Rui Rio por ser a sombra de Mário Centeno e continuou depois com Luís Montenegro, dizia essencialmente duas coisas: 1) apresentar superávites era praticamente uma obrigação; 2) e que não era “difícil pôr a economia portuguesa a crescer acima de 3%”. Anos volvidos, o risco do regresso aos défices é assumido por todos, e não se antecipa fácil (para dizer o mínimo) que o país venha a crescer “acima de 3%” nos próximos anos.

Claro que há um enorme conjunto de atenuantes a favor de Joaquim Miranda Sarmento — desde logo, o facto de o mundo se encontrar hoje na vertigem de um desastre sem precedentes. Mas, em rigor, também o governo de António Costa enfrentou uma pandemia praticamente sem precedentes e não consta que os sociais-democratas tenham tido isso em consideração quando criticaram legitimamente a estratégia económica dos antecessores. Neste caso muito concreto, Joaquim Miranda Sarmento está refém das suas próprias palavras. “Com mais produtividade e com algum crescimento da população ativa, não é difícil pôr a economia portuguesa a crescer acima de 3%.”

Objetivamente, o ministro das Finanças está perante cenário muito delicado: somado a um crescimento anémico, pode tornar-se o primeiro ministro das Finanças em muito tempo a registar défice nas contas públicas. É legítimo que queira fazer tudo ao seu alcance para impedir que isso aconteça, o que significa esconder os cheques na gaveta e deixar de responder aos emails dos seus colegas de Governo. Mas terá de se bater de frente com um homem que também foge da própria sombra: Luís Montenegro.

No dia em que assinalou os dois anos como primeiro-ministro, Montenegro teve o cuidado de reeditar uma frase que o perseguiu durante muitos anos e que manchou o seu percurso político. Em 2014, em plena troika, o então líder parlamentar do PSD disse o seguinte: “A vida das pessoas não está melhor, mas a do país está muito melhor”. Doze anos depois, como primeiro-ministro, Montenegro corrigiu o tiro: “Hoje o país está melhor e os portugueses também estão melhor”.

Não foi seguramente inocente a adaptação feita, nem o momento em que Montenegro a quis deixar escrita na pedra. Dias depois, no Conselho Nacional do PSD, o primeiro-ministro foi ainda mais longe: “Não temos nenhuma obsessão com os superávites. Nunca o vamos fazer à custa do sofrimento das pessoas. Se algum dia for preciso sacrificar esse resultado, tomaremos as medidas respetivas”.

Montenegro sabe bem o quanto custou ao partido ultrapassar a imagem deixada durante a troika. Grande parte do seu processo de afirmação como líder do PSD (já depois de ter tentado e falhado derrubar Rui Rio) foi feita a pensar na necessidade de cortar com o legado de Pedro Passos Coelho e de se aproximar da memória de Aníbal Cavaco Silva. Em grande medida, e não menos importante, é hoje claro para todos que o PS foi perdendo adesão popular porque preferiu acumular excedentes a resolver problemas que se foram tornando mais e mais graves.

Perante uma bifurcação difícil, Montenegro parece ter feito a sua escolha: entre ser um primeiro-ministro de centro-direita que perde o discurso das “contas certas” e a necessidade tomar medidas de emergência, escolheu a segunda opção. Veremos a extensão do esforço que estará disposto a fazer. Quanto a Joaquim Miranda Sarmento, terá de compreender a mensagem ou fica sem margem dentro do Conselho de Ministros. Um país pobre e com baixos salários não aguenta uma crise inflacionista sem que o seu Governo conheça bem as prioridades. As Marias Antonietas não se costumam dar bem.

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