Portugal Mariano: "Terra de Santa Maria"
Está por fazer uma história geral sobre um traço regularmente apontado como identitário de Portugal: olhar para o País, em linha diacrónica e com recurso a várias fontes, e perceber como a devoção à mãe do Deus dos cristãos pontuou a história da comunidade ou, inclusive, modelou a forma de ser dessa comunidade. Talvez mais justo seja dizer: está por refazer essa história, não obstante os vários e importantes estudos parcelares que para ela concorrem, mas que não chegam ainda para traçar a ponte entre a cronística antiga que desagua em Alberto Pimentel (1849-1925) — autor da obra mais citada pelos investigadores do século XX —, e os estudos atuais que tomam aspetos concretos desta temática e que, na esteira dessa constatação de que Portugal é um país mariano, têm abordado, com a metodologia da historiografia moderna, diversificados aspetos relativos a esta temática.
Medievalistas, modernistas e contemporaneistas muito têm contribuído para esse estudo, através de trabalhos, necessariamente segmentários, que examinam esse culto e, bem assim, as marcas desse culto de veneração com que os devotos honram a que tantas vezes denominam por sua senhora, declinando a designação sempre a partir da consciência coletiva (Nossa Senhora). A própria forma de nomear aquela figura histórica a que os Evangelhos aludem e que a Igreja coloca como o mais acabado exemplo de discípula de Jesus Cristo — e, por isso, na lógica católica, de especial intercessora diante de seu filho — deve ser motivo de análise, como propõe Carlos A. Moreira Azevedo (1953-……), lembrando a antiga designação “Santa Maria” como a mais precisa.
O rol dos autores que se têm debruçado sobre a cultura mariana em Portugal — oriundos de diferentes áreas do saber, desde a História à História da Arte e à Arqueologia, desde a Antropologia à Sociologia, passando, necessariamente, pelas Ciências Teológicas como a Mariologia e a Liturgia — é elucidativo da qualidade destes estudos, ancorados em fontes primárias que os arquivos custodiam, mas também na inevitável repetição das informações advindas da pena de cronistas que, da Baixa Idade Média às épocas moderna e contemporânea, confirmaram a importância da figura de........
