Pós Pax Americana: o redesenhar do Médio Oriente
Enquanto a atenção internacional continua fixada na armada americana no Golfo e na ameaça permanente de escalada entre o Irão, Israel e os Estados Unidos, uma transformação mais silenciosa, mas possivelmente mais duradoura, está em curso no Médio Oriente. A região está a dividir-se em blocos. De um lado, Israel, Índia e Emirados Árabes Unidos. Do outro, Turquia, Arábia Saudita e Paquistão, alinhados com o Egito e o Qatar. E, pela primeira vez em décadas, esta reconfiguração não está a ser orquestrada por Washington. Está a ser desenhada pelas próprias potências regionais, que perceberam que precisam de construir as suas próprias redes de segurança porque já não podem contar com os Estados Unidos para o fazer.
O bombardeamento israelita do Qatar, em setembro, parece ter sido o momento em que tudo mudou. Com um Irão cada vez mais enfraquecido e incapaz de sustentar a sua rede de proxies (principalmente após a guerra dos 12 dias com Israel), a maior fonte de preocupação para os países da região passou a ser a imprevisibilidade israelita e, talvez mais importante ainda, a incapacidade ou falta de vontade americana para a conter. Se Washington não consegue ou não quer travar os impulsos desestabilizadores de Israel, como fez no passado, então a arquitetura de segurança regional que dependia da contenção americana deixou de ser credível.
A resposta a esta nova realidade foi imediata. Poucos meses depois do ataque a Doha, a Arábia Saudita e o Paquistão assinaram um acordo de defesa mútua, concedendo aos sauditas um poderoso guarda-chuva nuclear. Por sua vez, os Emirados Árabes Unidos e a Índia aprofundaram a sua parceria estratégica de defesa. Israel, por seu lado, vê nos Emirados o seu maior aliado regional desde os Acordos de Abraão, e a perspetiva de os sauditas ficarem protegidos por um guarda-chuva nuclear paquistanês torna esta aliança ainda mais crucial. Rivalidades que durante anos permaneceram difusas estão agora a cristalizar-se em blocos cada vez mais definidos.
No centro desta reconfiguração está uma perceção cada vez mais partilhada entre várias potências regionais: os Emirados e Israel deixaram de ser parceiros úteis para se tornarem fatores de instabilidade. Durante anos, a estratégia emirati de financiar e apoiar milícias na Líbia, Somália, Sudão e Iémen foi tolerada porque o Médio Oriente estava absorvido por crises mais urgentes — de Gaza, ao confronto........
