Os corredores de Damasco
Nos últimos dias, as tensões no Médio Oriente voltaram a escalar. No domingo, forças americanas bombardearam a ilha iraniana de Larak, numa operação destinada a enfraquecer ainda mais o controlo do Irão sobre o estreito de Ormuz, e a retaliação iraniana, infrutífera, veio pouco depois sob a forma de ataques às bases americanas na Jordânia e nos Emirados Árabes Unidos. Que estes tenham sido os primeiros ataques de parte a parte em mais de um mês é, no entanto, talvez o aspeto menos relevante desta história. A guerra arrasta-se agora para o sétimo mês, e habituou-nos já a ataques intermitentes e a cessar-fogos que o são apenas em nome. O que esta nova onda de ataques revela é que a velha ordem da região, tanto militar como comercial, está hoje obsoleta. Mesmo que o conflito com o Irão termine em breve, os traumas ficarão, e a experiência de ficar refém de um regime tão imprevisível e pouco fiável como o iraniano servirá apenas para acelerar o desacoplamento de chokepoints como o estreito de Ormuz e a procura de novas rotas de exportação assentes em múltiplos canais redundantes de escoamento. E talvez nenhum país esteja tão bem posicionado para beneficiar desta reestruturação da ordem regional como a Síria.
Depois de quinze anos de guerra civil, subjugação ao regime iraniano e estagnação económica quase total, a Síria de Ahmad al-Sharaa apresenta-se hoje mais estável, e a sua posição geoestratégica, no coração de várias rotas comerciais potenciais, faz do país um parceiro cada vez mais difícil de ignorar. Mas é precisamente esse potencial que constitui o risco mais significativo para a sua estabilidade a longo prazo. A guerra lançada por Trump contra o Irão mostrou aos aliados históricos de Washington na região que a proximidade com os Estados Unidos se tornou uma vulnerabilidade, forçando uma procura urgente de diversificação das parcerias de segurança. Diversificação essa que teve nos acordos de Meca o seu reflexo mais claro.
O vazio deixado pelos Estados Unidos está a ser rapidamente preenchido por novas arquiteturas de segurança organizadas em torno de rivalidades regionais, que opõem um eixo sunita composto pela Turquia, Arábia Saudita e Paquistão, com o Egipto e o Qatar como parceiros próximos, a um eixo que podemos designar Indo-Abraâmico, composto por Israel, os Emirados e a Índia, com Marrocos, Chipre e Grécia na sua órbita. Esta rivalidade já se manifestou da Líbia ao Sudão, da Somália ao Iémen, mas é na Síria que se jogará o seu ponto mais crítico, com Israel e a Turquia a disputarem influência num país que pode vir a ser peça-chave na nova ordem regional.
A posição geográfica da Síria sempre foi o seu maior ativo. Como elo entre a Mesopotâmia, o Egipto e o Mediterrâneo na Rota da Seda, cidades como Alepo ou Palmira tornaram-se centros de cultura e de riqueza extrema, reunindo mercadores de todo o mundo. Já na era das conquistas islâmicas, Damasco tornou-se capital do império Omíada, servindo de centro a um império que se estendia da Península Ibérica ao Paquistão. Hoje, já sem grandes impérios ou Rotas da Seda, a Síria não perdeu a sua importância, servindo de elo de ligação direto entre as monarquias do Golfo e os portos mediterrânicos de Tartus e Latakia. A própria linha ferroviária de Hejaz (que visava ligar Medina a Damasco), que o Império Otomano ergueu e que a Primeira Guerra Mundial deixou em........
