Israel sem Netanyahu
Os israelitas votam hoje pela primeira vez desde o 7 de outubro, e fazem-no ao fim de mais de três anos de uma guerra que transformou Israel num ativo cada vez mais tóxico no Ocidente. O apoio à causa palestiniana continua a crescer enquanto, por reflexo, a simpatia pelo Estado judaico se mantém em declínio, sobretudo entre os eleitores mais jovens. Boa parte desta animosidade tem um rosto: Benjamin Netanyahu, que governa em coligação com a extrema-direita e tem adotado nos últimos anos uma postura crescentemente beligerante, com ações de cariz expansionista no Líbano, na Síria, no Irão e nos territórios palestinianos. Para muitos na Europa, uma derrota de Netanyahu seria, por isso, o início de uma viragem. Mas dificilmente o será. O essencial do que Netanyahu mudou pode já não depender de quem ocupa o cargo. Fora de portas, ao trocar o apoio bipartidário nos EUA pela aliança com a direita republicana, Netanyahu pôs em causa aquilo que durante décadas protegeu Israel em Washington. E, dentro de portas, as posições que defendeu em matéria de segurança e de política externa tornaram-se de tal forma consensuais que quase nenhum dos seus adversários propõe outra coisa.
Desde a sua génese, Israel sempre teve relações diplomáticas algo atribuladas. Nos finais dos anos 40, gozou do apoio da União Soviética, sendo a URSS de Stalin, inclusivamente, o primeiro país a reconhecer Israel de iure. Esta proximidade com os soviéticos era, em parte, ideológica, já que muitas das principais figuras do sionismo na altura, como Ben-Gurion e o seu partido Mapai, eram abertamente de esquerda e vistas pelos soviéticos como aliados naturais. Esse facto, a par do Pânico Vermelho de McCarthy, que ganhou verdadeiro fôlego nos anos 50 nos EUA, fez com que Israel fosse, inicialmente, visto com alguma desconfiança em Washington. A distância ficou, de resto, clara em 1956, quando Eisenhower pôs fim à tentativa conjunta de França, Reino Unido e Israel de tomar o controlo do canal do Suez.
Por volta da Guerra dos Seis Dias, em 1967, deu-se, porém, uma mudança. Depois de Israel ter derrotado de forma decisiva egípcios, jordanos e sírios, destruindo pelo caminho equipamento militar soviético, o cálculo estratégico em Washington transformou-se, e Israel passou a ser visto como um aliado capaz de conter a influência comunista na região a um custo relativamente baixo. Ainda que a mudança fosse anterior à guerra propriamente dita, parece inegável que o conflito deixou claro aos estrategas americanos que o alinhamento com Israel deveria ser, a partir daí, uma prioridade.
Do lado israelita, o afastamento de Moscovo já vinha dos anos 50. Quando Washington mudou de cálculo, Israel não hesitou em fazer da aliança americana um pilar da sua política externa, retirando daí recompensas consideráveis: para além de uma ajuda militar sem paralelo, passou a contar com o veto americano no Conselho de Segurança das Nações Unidas, que travou sistematicamente qualquer resolução que visasse sequer censurar as suas atuações. Preservar esse apoio, e sobretudo o seu carácter bipartidário, tornou-se assim um dogma da diplomacia israelita. Foi Netanyahu quem, já no século XXI, o começou a pôr em causa.
O colapso das negociações de paz israelo-palestinianas, depois do assassinato de Yitzhak Rabin em 1995, deixou a esquerda americana algo desencantada com Israel. Nunca houve uma rutura concreta, nada que se pareça, mas o Israel liberal que os democratas idealizavam nunca se materializou e, depois de o considerável capital político que Clinton investiu no processo de paz ter sido, na prática, desperdiçado, começaram a surgir as primeiras vozes críticas. O seu sucessor democrata, Barack Obama, personificou esta mudança em 2009, com o discurso do........
