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América pelo sangue e pela fé

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20.10.2026

“De todas as tiranias que oprimem a humanidade, a tirania religiosa é a pior: todas as outras limitam-se ao mundo em que vivemos, mas esta procura estender-se para além da sepultura e perseguir-nos pela eternidade.” Thomas Paine

As eleições intercalares (midterms) americanas são historicamente duras para o partido no poder. Desde 1913, ano em que a 17.ª Emenda entrou em vigor, apenas Franklin D. Roosevelt e George W. Bush conseguiram ganhar assentos em ambas as câmaras em midterms. Dizer, por isso, que o Partido Republicano se arrisca a perder as eleições que se realizarão daqui a duas semanas não é uma afirmação particularmente inovadora. Mas a dimensão da onda azul que, segundo as sondagens, aí se adivinha parece indiciar que, não obstante a tendência histórica, algo de particular se passa. A impopularidade de Donald Trump explica certamente uma parte, até porque a sua taxa de rejeição chegou a níveis históricos. Mas não explica tudo.

Durante décadas, a relação entre o Partido Republicano e o eleitorado religioso assentou num objetivo concreto. A revogação de Roe v. Wade (o caso que estabeleceu o aborto como um direito constitucional nos EUA) funcionava como horizonte comum para evangélicos e católicos conservadores, uma espécie de Zion político. Foi, em parte, essa a promessa que permitiu a Donald Trump monopolizar o voto evangélico. O bloqueio, pelo Senado republicano, da nomeação de Merrick Garland para o lugar deixado vago por Antonin Scalia transformou o Supremo Tribunal num ponto central da campanha, com Trump a apresentar a sua eleição como a única forma de assegurar que o Supremo Tribunal não cairia nas mãos dos Democratas; isto é, a única forma de assegurar a reversão de Roe v. Wade. Do outro lado, o Partido Democrata pareceu esquecer-se que, de Carter a Biden, as principais figuras do partido sempre se apresentaram como homens de fé declarada. À medida que a captura do voto religioso pela direita americana se consolidou, os Democratas responderam, tal como fizeram após a perda do eleitorado blue collar, com um certo desdém, atribuindo a sua própria incapacidade de reter esses votos a uma suposta ignorância que repentinamente caiu sobre os eleitores.

Em 2022, com a decisão Dobbs, que reverteu Roe v. Wade, um dos objetivos históricos do GOP foi cumprido, e a aposta de muita da direita religiosa em Trump deu frutos. Mas o problema surgiu no dia seguinte. O aborto não desapareceu da política americana. Aliás, depois de Dobbs a legalização do aborto passou para os estados, onde se tornou mais vezes um passivo do que um trunfo para a direita, com estados como o Kansas (um estado que não é conhecido pelas suas tendências progressistas) a votarem para manter a proteção do aborto na constituição estadual. Mas o problema não é só que o eleitorado se mostrou afinal mais progressista do que o GOP esperava. É que Roe funcionou durante anos como algo que unia evangélicos e católicos conservadores em torno de um objetivo comum, de uma causa. Com o objetivo alcançado, a pergunta que se impôs foi: e agora? O que une a direita religiosa?

A resposta que os Republicanos têm........

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