Passos vs Montenegro
1 Uma das últimas vezes que Luís Montenegro e Pedro Passos Coelho estiveram juntos, e ainda num regime de concórdia, terá sido na apresentação do meu livro “O Governador”. Convidei os dois pessoalmente e foi com muito gosto que os recebi na Fundação Calouste Gulbenkian, tendo o protocolo da Fundação decidido sentá-los lado a lado — onde foram fotografados em amena cavaqueira e com várias gargalhadas à mistura.
Estávamos a 15 novembro de 2022, Montenegro era líder do PSD, Passos Coelho continuava muito atento à vida política e os dois estavam unidos naquele momento pela avaliação positiva que faziam dos dois mandatos de Carlos Costa como governador do Banco do Portugal — que tinha sido nomeado por Passos para o seu segundo mandato como governador. Também os unia o apoio a um trabalho jornalístico que representava um escrutínio ao poder socialista liderado por António Costa e ao abuso de poder visível nas pressões sobre Carlos Costa no caso Isabel dos Santos (que hoje estão confirmadas pela voz do próprio Costa nas escutas da Operação Influencer) e no caso BANIF.
Passados cerca de três anos e meio, Pedro Passos Coelho e Luís Montenegro estão de candeias às avessas. Independentemente de eventuais questões pessoais — que são irrelevantes para o caso — o que me interessa enquanto jornalista e analista são as divergências políticas, que são claras e profundas.
E que se podem resumir de forma muito simples em duas ideias:
Com uma maioria relativa no Parlamento, Luís Montenegro tem insistido numa política de alianças pisca-pisca, aprovando umas medidas à direita (controlo de imigração é um bom exemplo) e outras à esquerda (Orçamento de Estado para 2025 é um exemplo). Passos Coelho entende que o PSD está a desperdiçar a maioria constitucional que a direita conseguiu reunir pela primeira vez desde o 25 de Abril e que Montenegro deveria ter, pelo menos, negociado uma maioria sólida com o Chega e a IL.
A divergência seguinte é uma consequência da primeira, já que Passos entende que o Governo Montenegro está a ser uma espécie de Governo Costa 2.0 (mas sem maioria absoluta), tolhido pelo diálogo à esquerda e à direita. Ou seja, não promove reformas estruturais para exponenciar o crescimento económico e governa com uma mera política redistributiva do PRR e dos impostos para ganhar nichos eleitorais.
Repito: são divergências políticas profundas.
2 De todas as intervenções públicas que Pedro Passos Coelho tem feito desde janeiro, a mais impressiva foi a entrevista que deu ao meu colega António Costa, diretor do jornal Eco. O seu pensamento reformista é explanado de forma bastante clara, desde logo numa perspetiva de incremento sustentado da ambição e da competitividade da economia portuguesa, para conquista de ganhos de produtividade e melhoria salarial. As reformas que defende para o Estado e combate à desburocratização, para a lei laboral ou para a TAP, são bons exemplos disso mesmo.
O mesmo se diga sobre a sua preocupação insistente — por mais impopular que seja — com a reforma da Segurança Social em que tem um discurso de verdade (tantas vezes deturpado demagogicamente pelo PS e pelas forças de extrema esquerda) para termos uma melhor justiça intergeracional em termos de regras que regulamentam as contribuições e as pensões da Segurança Social e da Caixa Geral de Aposentações. Ou os desequilíbrios sociais e culturais que podem ser gerados por uma imigração em excesso.
Subscrevo e concordo com todas estas preocupações — e outras que foram referidas na entrevista ao Eco.
No momento em que Passos Coelho saiu da liderança do PSD fiz questão de escrever um artigo que foi criticado por alguns colegas de profissão — uma parte relevante dos meus pares acha mal que eu assuma o meu posicionamento ideológico de forma transparente, simplesmente porque é um pensamento à direita e contraria a maioria de esquerda que perdura nas redações portuguesas. Esse artigo tem um título que diz tudo: “Obrigado, Pedro Passos Coelho”.
Mantenho tudo o que escrevi nesse artigo publicado em 2018 e que resumo numa ideia-chave: “Pedro Passos Coelho foi o líder político mais reformista dos últimos 30 anos. Desde Cavaco Silva que não aparecia um primeiro-ministro que não estivesse apenas preocupado em gerir o dia-a-dia do Estado sem ferir as suscetibilidades do eleitorado.”
3 Dito isto, regresso à entrevista ao Eco, porque a mesma tem quatro ideias políticas claras que aumentam, e muito, a complexidade da mensagem que o ex-primeiro-ministro quer passar. Aumentam a complexidade e criam dúvidas.
Passos Coelho acredita que vamos ter uma crise política e eleições antecipadas antes de 2029. Porque o “desgaste político” do Governo “é grande” devido a um primeiro Executivo Montenegro que foi tempo perdido, porque o PSD teve um “resultado modesto” de 32% nas legislativas de 2025 e porque todas estas condicionantes geraram “instabilidade”.
Sendo uma crise política quase inevitável, Montenegro deveria ter uma governação mais ambiciosa e tentar reformar o país. Se a oposição não deixa, deveria ir para eleições precisamente com essa mensagem.
Passos não tem medo de eleições porque acredita que o país virou à direita. Tem a convicção de que o PS não conseguirá sair da sua atual posição de terceira força política, devido ao seu imobilismo político. Daí o seu conselho para uma coligação à direita para atingir uma maioria política que reforme o país.
Contudo, deixa o alerta ao PSD de que o Chega pode ser a força política mais bem posicionada para ganhar as próximas eleições legislativas — mas num contexto partidário de três grandes partidos no Parlamento (PSD, Chega e PS).
E, finalmente, Passos Coelho anuncia que está disponível para regressar à política partidária — num timing que será ele a definir. Esta intenção é clara em vários pontos da entrevista.
4 Perante isto — nomeadamente a divergência profunda sobre a política de alianças e a disponibilidade para regressar à política ativa — o que fez Luís Montenegro? Antecipou as eleições internas do PSD e desafiou Passos Coelho.
Porque sentiu a sua autoridade política posta em causa perante o partido. Daí o discurso que fez no Conselho Nacional do PSD e a antecipação das diretas.
Percebe-se um objetivo imediato de Montenegro: tentar segurar o partido para solidificar o seu poder interno, até porque teve duas derrotas nos últimos dias nas eleições para a distrital de Braga e para a concelhia de Espinho. Se bem que nenhuma delas tenha alguma coisa a ver com Passos Coelho…
Esse primeiro objetivo é completamente exequível — não tenhamos dúvidas de que Montenegro vai ter 95% ou 97% nas eleições internas de Maio.
Já a concretização do segundo objetivo — tentar condicionar e reduzir o espaço de Passos Coelho — é completamente utópica. Desde logo porque é claro que Passos não vai concorrer a nenhumas diretas contra Montenegro.
Por outro lado, Passos Coelho não se vai remeter ao silêncio porque não aceitou o repto de Montenegro para as diretas. Isso é não conhecer Passos. Vai continuar a falar quando e como bem quiser.
Ou seja, esta tática de Montenegro com diretas antecipadas em vez de o reforçar, enfraquece-o.
A melhor forma de silenciar Passos Coelho é apresentar excelentes resultados na governação do país. A reconstrução do centro do país a ser feitas, reformas estruturais a serem executadas — ou pelo menos, reformas ambiciosas a serem tentadas. A produtividade a subir, o PIB a crescer acima de 3% ao ano, e sempre acima da média europeia, os salários a crescerem de forma sustentada… É isto que calará Passos Coelho — que, acredito, até ficaria feliz. E não uma tática pífia.
5 O que não significa que as intervenções de Pedro Passos Coelho estejam acima da crítica. Compreendo as suas intervenções, nomeadamente as críticas à ausência de reformas estruturais e ao desperdiçar de uma maioria constitucional que a direita tem neste momento no Parlamento. Como também subscrevo a convicção de que vamos ter, pelo menos, mais um ciclo político em que a atual maioria constitucional da direita vai manter-se.
Compreendo e subscrevo integralmente a ambição que Pedro Passos Coelho deseja para o Governo e para o país. Mas há uma coisa que ainda não percebi: o timing que Passos escolheu para regressar à política ativa.
Os riscos desse timing são evidentes.
Porque o eleitorado pode percecioná-lo como um fator de instabilidade. Nesta últimas semanas, é Passos que parece ser o líder da oposição. André Ventura — que bate palmas a tudo o que Passos faz — eclipsou-se. Parece mais interessado em armar peixeiradas com Teresa Morais no Parlamento para aparecer nos media. E de José Luís Carneiro nem vale a pena falar — está a revelar-se um líder socialista tão fraco que parece uma marioneta nas mãos das fações do PS, como se viu, uma vez mais, na questão do uso da base das Lajes por parte dos Estados Unidos.
E porque o seu regresso à política só pode passar pela reconquista do PSD. E não tendo o sistema partidário português os mecanismos de substituição de líderes partidários (sem eleições antecipadas) que caracterizam o sistema partidário inglês, é impossível que o seu regresso a líder do PSD não leve a uma crise política.
Por outro lado, e regressando a André Ventura, tenho muitas dúvidas que Ventura vá estender a passadeira vermelha para que Passos Coelho possa liderar a direita. Sendo um regresso de Passos a maior ameaça ao crescimento do Chega, como é que Ventura poderá ficar de braços cruzados?
E, finalmente, persistem dúvidas sobre o peso eleitoral de Passos Coelho — que continua a ter um índice de rejeição significativo. Conseguirá Passos ter mais do que os “modestos 32%” — e logo num contexto em que as eleições antecipadas nasceriam do próprio PSD?
Ou será que Passos Coelho não vê futuro no PSD e quer avançar para o Chega ou para um novo partido político? Um pouco como Emmanuel Macron fez em França com o seu movimento La Republique en Marche!, lançado em 2016 e que o levou à conquista do poder no ano seguinte.
São respostas que só o próprio Passos Coelho pode dar. Mas as mesmas também dependem, e muito, do sucesso (ou insucesso) da governação de Luís Montenegro.
Siga-me no Facebook (@factoserigor e @luis.rosa.7393), Twitter (@luisrosanews) e Instagram (@luis.rosa.7393)
Receba um alerta sempre que Luís Rosa publique um novo artigo.
