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#Daniel

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28.09.2026

Devíamos todos, pelo menos uma vez na vida, parar um pouco e, sentados no muro da zona pedonal de Matosinhos, deixar-nos embalar por um dos pores do sol que ali têm palco.

Aquela parte da cidade, tal como um bom vinho branco – e os melhores são sempre os das zonas de transição –, ocupa geograficamente um enclave entre o Porto e Matosinhos. Poderia chamar-se “Praia do Porto”, não desmereceria por isso, ou simplesmente “A Praia”, nome que tirando aquela com Leonardo DiCaprio e Virginie Ledoyen nos incendiou as hormonas, e lhe assentaria como “traje-de-luzes”.

Mergulhar nesse espaço é participar num exemplo onde a intervenção primou pela preservação do que a natureza oferecia e resultou numa ocupação equilibrada para usufruto de todos os que por ali circulam. É sem dúvida disso um belíssimo exemplo.

Duas construções ali são dignas de destaque. A primeira é conhecida como Anémona, uma escultura suspensa de Janet Echelman que desde 2005 nos embala num renovar permanente da forma, característica de onde lhe vem o nome original, She Changes.

A segunda nota arquitetónica é-nos devolvida à direita pelo Terminal de Cruzeiros do Porto de Leixões, uma obra do arquiteto Luís Pedro Silva, alguém que migrou de Oliveira de Azeméis e no percurso de vida se obrigou a celebrar o belo.

Por natureza sou um conservador, alguém sempre desconfiado da intervenção humana. Porque atento ao que me rodeia, tenho tendência para uma solastalgia – sentimento de tristeza, angústia ou perda provocado pela transformação ou degradação do lugar onde se vive e a que se está emocionalmente ligado –, uma palavra e sentimento que me assola sempre que vejo destruído tudo quanto aprendi a amar. A Praia de Matosinhos, felizmente, não resulta nesse sentimento. Bem hajam por isso.

Já o mesmo não acontece no que deixamos pelas costas, ou à esquerda, lá mais distante, mas ocupando esse continuum de areal. Quem estiver sentado na zona pedonal tem para lá da Anémona um edifício que dá pelo provocador nome de Edifício Transparente. Esta é uma construção de Manuel de Solà-Morales, com fachadas de vidro, planeada no âmbito do Porto 2001 – Capital Europeia da Cultura. Este trambolho brotou como uma forma de Dadaísmo tardio, uma barbárie própria dos movimentos anticulturais ou da espúria tentativa de ali dar ares de modernidade. Faltou ali qualquer coisa a Rui Rio. Talvez fosse apenas bom gosto, porque coragem, essa, tem de sobra. Felizmente, este amontoado de vidro e ao que me dizem, terá os dias contados. Vamos ver o que de lá surge. Nestas coisas nunca fiando.

O segundo elemento de solastalgia resulta do crime em curso na Avenida da Boavista. Crime porque assassinaram uma avenida destruindo a zona pedonal e de ciclovia segura. Nisso arrasaram o arvoredo, pelo menos na metade nascente da intervenção e destruíram a via pedestre central que polvilharam por antas de cimento, obra cuja assinatura de Siza Vieira e Tiago Figueiredo não compensa o espaço nem o verde de que se vestia; crime........

© Observador