Golpismo na Guiné-Bissau: desafio para África e Europa
A verdade que se vê deve sempre ser dita. Hoje, estamos a menos de uma semana do próximo golpe de Estado na Guiné-Bissau – e toda a gente a ver, como se nada fosse.
O referendo sobre a nova Constituição de domingo, 30 de Agosto, será o segundo acto do “auto-golpe” de 26 de Novembro passado, a mascarada que impediu a contagem final e a proclamação dos resultados das eleições de 23 de Novembro. O terceiro acto do PGEC (Processo Golpista Em Curso), a que a Guiné-Bissau foi entregue, está já marcado para 6 de Dezembro, quando estão previstas novas eleições, a realizar em moldes mais “seguros” do que as de 23 de Novembro, cuja normal conclusão houve que sabotar.
O próximo referendo – um referendo manu militari, na escola de Putin – destina-se a dar um traje “democrático” às autoridades de transição, instaladas no poder pelo primeiro golpe, e ao seu futuro quadro de actuação. As eleições de 6 de Dezembro destinam-se a consolidar como definitiva a ditadura provisória da transição, consolidando o apoderamento do Estado pelos interesses e grupos que manejam este processo. O mais provável é Umaro Sissoco Embaló regressar formalmente ao poder em Dezembro, mas o essencial é os interesses do narcotráfico ficarem satisfeitos, ou por ficarem no poder ou ficarem a condicionar quem se sente nas cadeiras.
Umaro Sissoco Embaló, apesar de todos os atropelos à legalidade democrática com que preparou as eleições de 23 de Novembro, proibindo alguns candidatos e partidos de se apresentarem, a fim de ser relegitimado e fazer-se reeleger, fez mal os cálculos – e, de facto, todos sabem, perdeu. Daí, em desespero, na 25.ª hora, ter lançado o mundialmente famoso auto-golpe. Por isso, é indispensável que o terceiro golpe, as eleições de 6 de Dezembro, não tenha quaisquer concessões ou fragilidades. O modelo é o que está em aplicação neste referendo de 30 de Agosto: sedes de partidos políticos continuam fechadas, presos políticos continuam detidos, dirigentes políticos da oposição como Domingos Simões Pereira continuam objecto de restrições de movimentos e de palavra, a campanha pelo “não” está severamente confinada, só há a campanha oficialista pelo “sim”, não há liberdade de expressão nem em período eleitoral. E, possivelmente, não seria surpresa que os resultados da votação já estivessem escritos de antemão. À........
