menu_open Columnists
We use cookies to provide some features and experiences in QOSHE

More information  .  Close

O perigoso convite de Montenegro a Moscovo

23 0
10.06.2026

Há frases que, em política externa, não podem ser avaliadas apenas pela intenção com que são ditas. Têm de ser avaliadas pelo sinal que enviam. E quando o Primeiro-Ministro português afirma que uma paz duradoura na Ucrânia implica “sentar a Rússia” à mesa negocial, o problema não está apenas na evidência formal da frase. É claro que, em algum momento, qualquer guerra terminará com alguma forma de contacto entre as partes. O problema está no tempo, no tom e na ausência de condições políticas claras.

Porque Vladimir Putin não precisa que a Europa lhe explique que existe uma mesa. Putin precisa de perceber que não há vitória possível no campo de batalha, que não haverá reconhecimento das conquistas territoriais obtidas pela força, que a Ucrânia não será tratada como objecto de negociação entre terceiros e que a Europa não confundirá cansaço com prudência.

Portugal não pode falar da Ucrânia como se estivesse perante um conflito simétrico entre duas partes teimosas. Há um agressor e há um agredido. Há um Estado que invadiu e há um Estado que resiste. Há um regime que bombardeia cidades, deporta crianças, destrói infraestruturas civis e testa diariamente os limites da segurança europeia. E há um povo que paga, com sangue, a defesa da sua liberdade e, em larga medida, da segurança de todo o continente europeu.

Por isso, quando Luís Montenegro diz que a Europa deve tomar a iniciativa de dialogar com a Ucrânia e também com a Rússia, falta-lhe dizer o essencial: dialogar com Moscovo para quê, em que condições e com que linhas vermelhas? Sem essa moldura, a mensagem torna-se perigosa. Não porque a diplomacia seja dispensável, mas porque a diplomacia sem força, sem clareza e sem princípios rapidamente se transforma em encenação.

A história europeia devia ter-nos vacinado contra a tentação de chamar “realismo” àquilo que, demasiadas vezes, é apenas medo bem vestido. Realismo não é acreditar que Putin ficará mais moderado se lhe for oferecido estatuto internacional. Realismo não é imaginar que o Kremlin respeitará compromissos que assinou enquanto continuar a beneficiar da violação dos anteriores. Realismo não é dizer à Ucrânia que aceite uma paz que, na prática, recompensa a agressão russa e prepara a próxima guerra.

Realismo é precisamente o contrário. É compreender que a paz só será........

© Observador