A Queda do Regime Intocável
Durante quase meio século, a República Islâmica do Irão foi tratada como uma constante geopolítica. Um regime repressivo, ideológico e agressivo, mas estruturalmente estável. Mudavam presidentes, alteravam-se equilíbrios regionais, assinavam-se acordos nucleares e impunham-se sanções, mas o núcleo do sistema permanecia intocado. O Líder Supremo, as Guardas Revolucionárias, a teocracia institucionalizada. O mundo habituou-se à ideia de que o regime iraniano podia ser contido, negociado, pressionado ou sancionado, mas não verdadeiramente abalado.
Os ataques conduzidos pelos Estados Unidos e por Israel no final de fevereiro, culminando na morte de Ali Khamenei, quebraram essa perceção de permanência. Não se trata apenas de mais um episódio de escalada no Médio Oriente. Trata-se de um momento de rutura histórica. Pela primeira vez desde 1979, o centro simbólico e operacional do regime foi atingido de forma direta.
O impacto interno não pode ser lido através das lentes simplistas que frequentemente dominam o debate europeu. Durante décadas, a República Islâmica procurou fundir o regime com a nação, apresentando qualquer crítica como traição à pátria. Mas essa fusão nunca foi completa. O Irão é uma civilização milenar, anterior ao islamismo político, anterior à revolução de 1979 e certamente anterior à liderança de Khamenei.
Nos últimos meses, a repressão atingiu níveis de violência que marcaram uma nova geração. Manifestações de proporções históricas foram esmagadas com munições reais, detenções arbitrárias multiplicaram-se, relatos de violência sexual e execuções extrajudiciais tornaram-se recorrentes. O corte sistemático de internet e eletricidade foi utilizado como arma política. Milhares morreram. Muitos mais foram detidos. Hospitais foram pressionados a não reportar feridos. O medo tornou-se método de governo.
É neste contexto que se deve interpretar a reação de muitos iranianos aos acontecimentos recentes. Apesar do controlo informativo, circularam relatos de celebrações em algumas zonas urbanas. Na diáspora, a reação foi mais visível: bandeiras pré-revolução, manifestações espontâneas, discursos de esperança.........
