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Por Que Razão as Sociedades Modernas Não Gostam da Verdade

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29.04.2026

I. DO AMOR À VERDADE AO HORROR À VERDADE

«Que é a verdade?» — Pôncio Pilatos

Durante grande parte da história intelectual do Ocidente, a verdade foi considerada um bem — condição de liberdade e de ordem. Na filosofia grega, de Platão a Aristóteles, a verdade é entendida como realidade objectiva — as Formas em Platão, a inteligibilidade do real em Aristóteles — à qual o intelecto (logos) deve adequar-se para alcançar o conhecimento verdadeiro e a sua plena realização. Para o pensamento clássico, o conhecimento da verdade constitui o horizonte último do intelecto e identifica-se com o bem supremo, estando intimamente ligado à ideia de felicidade (eudaimonia).

A tradição cristã aprofundou esta concepção, conferindo-lhe uma dimensão existencial e pessoal. No Evangelho de João (18, 37-38), perante Pilatos, Jesus declara: «…Nasci e vim ao mundo para dar testemunho da verdade. Todo aquele que é da verdade escuta a minha voz.» E à pergunta céptica da epígrafe, do prefeito romano, Jesus responde apenas com o silêncio da sua própria presença. O conceito de verdade deixa, assim, de se apresentar apenas como categoria metafísica, para surgir como realidade viva, visível na forma humana de Deus encarnado, que interpela e reclama adesão.

Nessa senda, encontramos depois, em Agostinho de Hipona, uma verdade que ilumina e julga a interioridade, como possibilidade de unificação da alma: luz que revela a dispersão interior e chama ao regresso à unidade. Já em Tomás de Aquino, a verdade é definida como adequação do intelecto à realidade (adaequatio intellectus et rei), precedendo a vontade e orientando a acção moral. O erro desorganiza; a verdade, mesmo exigente, ordena.

Durante séculos, esta concepção de verdade não permaneceu circunscrita à esfera individual, sendo reconhecida, ao menos ao nível dos princípios, pela política, pela justiça e pela educação como critério normativo. Mesmo quando traída, a verdade conservava autoridade suficiente para ter de ser simulada: a hipocrisia era ainda uma forma indirecta de homenagem — à mulher de César não basta ser, é preciso parecer — e a consciência da mentira de alguma forma preservava, ainda que negativamente, o primado da verdade.

Mas essa autoridade, durante séculos apenas dissimulada, começaria, na modernidade, a ser progressivamente questionada — e, por fim, erodida.

II. DA RUPTURA MODERNA DA VERDADE À SUA EROSÃO CONTEMPORÂNEA

«Nein, gerade Tatsachen gibt es nicht, nur Interpretationen. » — Friedrich Nietzsche

(Não, não existem factos, apenas interpretações.)

A modernidade introduz uma inflexão decisiva: a verdade deixa progressivamente de ser entendida na acepção clássica de correspondência entre intelecto e realidade, passando a ser interrogada à luz das condicionantes históricas, sociais e políticas que a envolvem.

Com Friedrich Nietzsche, a ruptura assume uma dimensão genealógica: as verdades deixam de ser descobertas intemporais para se revelarem como cristalizações de interpretações que triunfaram — um conjunto de metáforas esquecidas como tal, sob cuja pretensão de universalidade se oculta uma vontade de poder.

Martin Heidegger radicaliza esta deslocação, interrogando a história da metafísica ocidental, que teria reduzido a verdade à mera adequação à realidade.

Michel Foucault, por seu turno, propõe uma leitura histórico-crítica através da noção de “regimes de verdade”: práticas institucionais e relações de poder que, através de mecanismos, instituições (escola, a universidade, a prisão) e discursos, em cada época, definem o que é considerado verdadeiro ou falso.

Se o período moderno problematizou conceptualmente a verdade, as sociedades ocidentais contemporâneas tendem, não tanto a negá-la frontalmente, mas a relativizar a sua centralidade.

Essa deslocação manifesta-se em múltiplos planos — psicológico, social, político e cultural — que, embora distintos, convergem numa progressiva desvalorização da verdade enquanto critério orientador da vida colectiva:

1. Vieses e dissonância cognitiva – Verdade versus identidade

«Mundus vult decipi, ergo decipiatur.»

(O mundo quer ser enganado; seja, pois, enganado.)

Aproveitando a tendência natural do ser humano para procurar informação que confirme crenças prévias (confirmation bias) e — como a psicologia cognitiva tem vindo a demonstrar — com o aparente fim de rejeitar dados geradores de dissonância, as sociedades contemporâneas parecem fragmentar-se em grupos relativamente estanques, que militam, não raramente com cego fervor, em torno de posições previamente assumidas.

São disso exemplo a forma como, em debates altamente parecem  — como os que emergiram durante a pandemia de COVID-19 ou em torno de questões ideológicas ou identitárias — muitos indivíduos seleccionam informação recorrendo apenas a fontes susceptíveis de confirmar a posição adoptada, ignorando consensos científicos, recensões jornalísticas ou estudos académicos mais amplos.

Admitamos que os media contemporâneos, arvorados à condição de modernos lanistas, têm contribuído para a simplificação do debate público. Em vez da sua densificação, privilegiam frequentemente modelos de confronto, convocando para as suas arenas intervenientes de intransigente militância na defesa de posições previamente definidas.

Neste contexto, a disposição para o juízo crítico ou para a moderação tende a ceder lugar à afirmação categórica, tornando o espaço público menos propício ao contraditório e mais permeável à irredutibilidade.

A informação passa, assim, a ser procurada e filtrada pela crença, e não o contrário. Não se trata apenas de ignorância factual, mas de autopreservação identitária: a admissão do erro — e, com ela, a aceitação da verdade — implicaria uma revisão profunda da própria narrativa pessoal.

2. Necessidade de validação grupal – Verdade versus lealdade

«Überzeugungen sind gefährlichere Feinde der Wahrheit als Lügen. » — Friedrich Nietzsche

(As crenças são mais perigosas inimigas da verdade do........

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