Converter conhecimento em capacidade
Conhecimento, tecnologia e produção
A competitividade, a soberania tecnológica e a reindustrialização regressaram ao centro da agenda europeia, com expressão direta na agenda nacional. A pandemia, a guerra, a transição energética, os avanços na inteligência artificial e a reorganização das cadeias globais de valor tornaram mais visível o modo como a base tecnológica de uma economia condiciona a sua capacidade de crescer, responder a choques e participar em mercados exigentes.
Essa base tecnológica não resulta apenas do conhecimento que a economia produz; depende também da capacidade de o transformar em soluções usadas, produzidas e escaladas. Associado a esta dimensão está o problema prático de converter conhecimento em tecnologia utilizável e tecnologia utilizável em capacidade produtiva. A Europa tem ciência de elevada qualidade, empresas competitivas em diversos setores, instrumentos públicos sofisticados e uma longa experiência de cooperação transnacional. Persistem, no entanto, dificuldades em passar de resultados promissores para tecnologias validadas, primeiros clientes, produção e escala.
Em Portugal, a questão coloca-se com particular nitidez. A base científica é hoje incomparavelmente mais sólida do que há quatro décadas. Há empresas mais internacionalizadas, instituições de interface com experiência acumulada e instrumentos públicos mais orientados para a colaboração entre conhecimento e economia. Permanece, ainda assim, o desafio de fazer com que estes recursos se reforcem mutuamente, em vez de se organizarem apenas em torno de projetos e ciclos de financiamento sucessivos.
O avanço entre etapas
A conversão de conhecimento em capacidade produtiva não é simples nem imediata. Uma descoberta científica tem de ganhar forma tecnológica. Uma solução técnica tem de se tornar um protótipo fiável. Um protótipo tem de ser demonstrado em condições próximas do uso real. Uma tecnologia promissora tem de atravessar processos de normalização, certificação, enquadramento regulatório, integração industrial, acesso a financiamento, primeiro comprador e escala. Estas etapas não formam uma sequência rígida; muitas vezes sobrepõem-se e obrigam a regressar a decisões anteriores.
A capacidade de conversão de um sistema de inovação consiste precisamente nesta aptidão para fazer avançar resultados promissores para validação, adoção, investimento, produção e escala. Cada etapa cria novas exigências, e as falhas entre elas são frequentes: atrasos, avaliações repetidas, instrumentos que não comunicam entre si, demonstradores sem utilizadores, empresas incapazes de absorver risco tecnológico ou infraestruturas subutilizadas. A articulação entre etapas é fundamental para encurtar a distância entre ciência e mercado.
Esta perspetiva ganha importância quando a Europa prepara novos instrumentos para a competitividade, discute o próximo programa-quadro de investigação e inovação e procura articular ciência, indústria, coesão, defesa, energia, digitalização e resiliência. Os grandes programas e os volumes financeiros continuarão a ser necessários. A sua eficácia dependerá, em boa medida, da capacidade de organizar a passagem para etapas seguintes: criar uma empresa, entrar num ensaio, construir um demonstrador, certificar um produto, garantir um primeiro comprador, financiar uma linha piloto ou escalar uma tecnologia para produção.
A política pública não deve........
