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Portugal-Espanha: o jogo que ninguém vai ver

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06.07.2026

Hoje, em Dallas, Portugal defronta a Espanha nos oitavos de final do Mundial. É a conversa do dia desde os cafés aos grupos de WhatsApp, e por noventa minutos e mais uns trocos, o país inteiro vai parar para saber quem ganha. O Estado inteiro já mostrou como leva isto quase tão seriamente como a cobrança de impostos: o primeiro-ministro esteve em Houston a ver o Uzbequistão, com quem presumo termos relações estratégicas profundíssimas, depois voou a Toronto para a Croácia, o presidente da Assembleia da República foi a Houston ver a estreia frente à RD Congo, e o Presidente Seguro marcou presença em Miami contra a Colômbia. Foram, aliás, pesarosamente, porque todos sabemos que as suas verdadeiras prioridades são a saúde, a educação e a justiça. Tão prioritária, de resto, que esta última ainda arranjou tempo para indemnizar José Sócrates em quinze mil euros.

A verdade é que, muito antes de haver clássicos ibéricos no futebol, Portugal e Espanha disputavam algo bem mais importante: a própria existência de Portugal. No século XVI, Portugal impressionou a Europa inteira tendo D. Manuel I enviado a Roma, para o Papa Leão X, um rinoceronte vivo, o primeiro que a Europa via desde a Antiguidade. Reza a lenda que o Papa ficou tão embasbacado que decretou entrada gratuita para portugueses nos espectáculos romanos, privilégio que italianos espertos passaram a explorar fingindo-se portugueses, e que sobrevive ainda hoje na expressão italiana fare il portoghese. Porém, sobrevive o boato, mas não a grandeza que o motivou. Fomos encolhendo. Deixámos de pensar como império para nos habituarmos a pensar como rectângulo, e de rectângulo passámos à província periférica da Europa, incapaz de definir com verdadeira autonomia a sua política externa. Ninguém nos tirou o rei desta vez, nem foi preciso invadir fronteiras. Mas o instinto de ceder em vez de negociar, de seguir em vez de liderar, é desconfortavelmente semelhante. Ao menos não somos espanhóis…

Não foi noticiado como merecia, e não é difícil perceber porquê: não tinha bola, para o povo, nem cobrança de impostos, para o Estado, os dois únicos assuntos a que este........

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