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Camilo Castelo Branco, o Nuno Palma avant la lettre

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24.08.2026

Nas crónicas que Arturo Pérez-Reverte mandou do Líbano nos anos oitenta há uma constante. Os comboios humanitários chegavam sempre depois. Depois do cessar-fogo que durava uma tarde, depois do acordo entre Israel e a Síria e do seu contrário, depois de já não servirem para nada. Ando a caçar essas crónicas por causa de uma discussão infantil que mantenho há anos com um amigo lisboeta, catedrático, homem das ciências exactas, sobre a caridade, ou a falta dela, naquelas e noutras geografias. Como adultos sérios que somos, nenhum admite ouvir o outro. Não ando a estudar o assunto, ando a municiar-me. Como bom iseguiano, contra argumentos não há factos.

Foi no meio dos galhardetes que o mesmo amigo me recomendou um livro. Há amigos que recomendam praias. Os meus mandam bibliografia. O Perfil do Marquês de Pombal, de Camilo Castelo Branco. Leitura de Agosto, garantiu, um ensaio crítico muito bem conseguido. Reagi como quem recebe uma convocatória para uma reunião de condomínio. Coisa séria demais para Agosto e, vindo de quem vem, certamente profunda, chata e, pecado mortal, longa.

De todos os modos, como me aborrecia, lá procurei o livro. O primeiro ponto teve graça: o livro não existe… Comecei pelas livrarias dos centros comerciais. Nada. Entrei nas duas independentes que ainda resistem no Algarve. Nada. Passei às cadeias de supermercados, onde há sempre catorze exemplares do último ensaio sobre ajuda, auto-ajuda e contra-ajuda. Nada. Como não tenho paciência para safáris, fui à internet. Encontrei edições em segunda mão no eBay, aparentemente de alfarrabistas do Porto, e descobri que a Guerra e Paz reeditou a obra em 2022. Encontrá-la fisicamente, porém, é um quebra-cabeças. Acabei por fazer o que qualquer pessoa razoável faria: comprei-a no Kindle por cerca de três euros e descarreguei-a em segundos. Um investimento em conta para ler o retrato do homem que temos no centro da rotunda do Sporting.

Ficou no Kindle, por abrir, três semanas. Bastou o post de Nuno Palma e a curiosidade foi mais forte do que a preguiça. Contrariando a directiva da minha mulher de que os livros aprovados para leitura de verão têm de ser mínimos, este não é curto. Tampouco é imparcial. E a história não é bonita.........

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