Democracia ligada às máquinas
Há democracias que morrem com estrondo: tanques na rua, parlamentos fechados, censura explícita. E há outras que não morrem. Ficam. Permanecem deitadas, ligadas às máquinas, com os sinais vitais controlados, o protocolo cumprido, o corpo aparentemente estável, mas sem resposta aos estímulos fundamentais. A audição regimental de 28 de janeiro de 2026, na Assembleia da República, foi um desses momentos em que se percebe que a nossa democracia não caiu. Está em coma.
Tudo aconteceu com normalidade absoluta. Hora marcada, comissão reunida, microfones ligados e linguagem institucional afinada. A Ministra da Cultura, Juventude e Desporto compareceu perante a Comissão de Assuntos Constitucionais, Direitos, Liberdades e Garantias — precisamente a comissão que existe para vigiar os limites do poder do Estado e proteger os direitos fundamentais dos cidadãos. À superfície, o organismo democrático funcionava. Depois vieram as perguntas.
Uma deputada colocou questões diretas sobre autoridade parental, sobre crianças retiradas às famílias, sobre bloqueadores hormonais e intervenções médicas irreversíveis em menores,........
