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O testemunho de Artur, um pai alienado (VII)

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17.04.2026

Neste texto, damos continuidade à história de Artur, um pai alienado, que temos vindo a acompanhar ao longo das últimas semanas. Tal como nos artigos anteriores, continuamos a acompanhar, etapa a etapa, o seu percurso. Neste texto, comentamos uma fase particularmente sensível, em que as decisões formais e os acontecimentos concretos expõem, de forma clara, a fragilidade das relações familiares. O que aqui se descreverá não é apenas uma mudança na organização da vida da filha Matilde, mas um verdadeiro ponto de rutura nessa organização. A definição de uma residência alternada provisória surgiu como uma tentativa de equilíbrio que rapidamente deu lugar a episódios que revelaram um corte profundo na relação com a mãe.

Este é a história de uma criança alienada colocada no meio de dois lados, o do seu pai e da sua mãe, e que foi obrigada a gerir emoções que não eram suas e a fazer escolhas que não deveria ter que fazer. A forma como estes episódios se desenrolaram permitirá compreender, de forma próxima, o impacto real destas dinâmicas na sua vida emocional.

Mais do que um caso isolado, este momento expõe, de forma clara, o conflito de lealdades, a instabilidade nas relações e as consequências de um afastamento prolongado. Ao longo deste texto, procuramos não só dar voz ao testemunho de Artur, mas também compreender o significado destes acontecimentos, numa leitura que procura tornar visível aquilo que muitas vezes permanece silencioso, o impacto psicológico destas experiências na vida de uma criança alienada.

A fase que se seguiu no percurso de Artur introduziu uma mudança formal na organização da vida da sua filha Matilde que passou de uma situação de residência exclusiva com a mãe para um regime de residência alternada interina. À primeira vista, esta decisão poderia representar uma tentativa de equilíbrio e de reaproximação, criando condições para a presença do pai e da mãe na vida da filha Matilde. No entanto, este momento surgiu num contexto já marcado por desgaste emocional, conflito e fragilidade relacional. Artur descreveu-o como um esforço consciente de adaptação: “foi decretada uma guarda alternada provisória. Na altura, tendo em conta que a mãe era hospedeira, ficou definido que, nas ausências dela, eu ficaria com a Matilde. E, nas folgas da mãe, mesmo que fosse a minha semana, eu comprometia-me a ceder. Fizemos esse esforço, tentámos ajustar tudo da melhor forma”. Este testemunho revela mais do que uma simples solução prática para a reorganização da vida da filha. Mostra um pai que, apesar do histórico de conflito decorrente da sua alienação, procurou cooperar de forma flexível considerando a situação profissional da mãe, colocando a estabilidade da vida da filha acima da sua própria posição, numa tentativa clara de evitar mais uma rutura, de garantir uma previsibilidade que assegurasse à filha alguma continuidade emocional.

Este tipo de esforço é significativo. Em contextos de elevada tensão, a capacidade de um dos lados ceder e ajustar-se pode funcionar como um fator de proteção para a criança alienada. No entanto, também evidencia um desequilíbrio. Quando a responsabilidade pela estabilidade na organização da sua vida recai de forma mais intensa sobre um dos pais, esse esforço pode tornar-se invisível ou insuficiente face à complexidade da situação.

Esta aparente reorganização rapidamente foi interrompida por um episódio de rutura abrupta, com forte impacto emocional. Artur descreveu este momento particularmente marcante: “No dia 24 de abril de 2018, a Matilde, ao regressar de uma visita de estudo sobre a Revolução dos Cravos, deparou-se com toda a sua roupa, os seus livros, os seus pertences pessoais, a sua guitarra e todo o material de música deixados na receção da Escola …. Por motivos que eu não conheço totalmente, a mãe, na sequência de conflitos com a filha, decidiu deixar ali todas as suas coisas e foi embora. Fui eu buscá-las, com uma carrinha”. Este acontecimento representa uma rutura simbólica e concreta. A exposição pública dos bens pessoais da criança, num espaço institucional, traduz uma forma de rejeição que ultrapassa o conflito relacional, assumindo um carácter de exclusão.

Na reflexão que fez sobre este momento, Artur procurou compreender o comportamento da mãe alienadora, enquadrando-o num padrão que reconheceu noutras situações semelhantes: “Eu acho que, naquela altura e isso acontece muitas vezes com muitos pais e muitas mães, quando o filho não corresponde ao que o adulto quer, a reação é: ‘Se não queres estar comigo ou não fazes aquilo que eu espero, então esquece que eu existo’. Mas, mais do que dizer isso, a mãe chegou ao ponto de colocar tudo fora de casa, os bens, as coisas, e dizer: ‘Pronto, tomaste essa decisão, queres estar com o teu pai, então, da minha parte, acabou’”. Este testemunho revela uma rutura relacional total, onde a ligação da mãe com a filha deixa de ser incondicional e passa a depender do comportamento por ela adotado, e em que o vínculo deixa de ser um espaço seguro e passa a estar condicionado à aceitação da vontade do adulto pela criança.

Esta dinâmica relacional é particularmente exigente para a criança. Quando o afeto é apresentado como algo que pode ser retirado, a criança alienada tende a adaptar-se para não perder a relação. Procura corresponder, agradar e evitar conflito, mesmo que isso implique anular as suas próprias necessidades ou sentimentos.

Neste caso, a mensagem implícita é clara e difícil de gerir, gostar do pai alienado pode significar perder a mãe alienadora. Esta ideia coloca a criança alienada numa posição de escolha impossível, onde qualquer decisão implica uma perda. A relação deixa de ser vivida como um espaço de segurança e passa a ser marcada pelo medo, culpa e necessidade constante de validação dos seus comportamentos.

Ao mesmo tempo, este tipo de comportamento por parte do adulto pode estar associado a dificuldade em lidar com a frustração, com a separação ou com a perda de controlo sobre a relação com o filho. No entanto, independentemente da origem, o impacto na criança é profundo, a ligação afetiva deixa de ser estável e passa a ser vivida como algo frágil, que pode desaparecer.

Assim, este momento não representa apenas um conflito entre o pai e a mãe, mas uma alteração na forma como a criança vive o amor e a pertença. O que deveria ser uma relação de base segura transforma-se num espaço de tensão, onde a criança alienada sente que tem de escolher para não perder.

Neste contexto, emerge de uma forma particularmente clara o impacto emocional vivido pela filha Matilde que Artur descreveu como uma tentativa persistente da filha para manter a ligação com a mãe alienadora: “Sim, porque a Matilde queria muito estar com a mãe, no fundo. Quando a mãe a colocou fora, foi como se dissesse: ‘Se escolheste assim, então ficas completamente com o teu pai’. Lembro-me de a Matilde tentar manter a ligação, ligava, tentava combinar um almoço, pedia para a mãe a ir buscar. A mãe até dizia que sim, mas depois, quando chegava a hora, já não aparecia. A Matilde fez muitas tentativas, esforçou-se muito para que a mãe não ficasse zangada com ela por causa dessa decisão”. Estas palavras mostram que a filha não rompeu com a mãe. Pelo contrário, insistiu em manter a relação. Isto é emocionalmente muito importante, porque revela que a Matilde não estava a rejeitar a mãe nem a escolher o pai contra ela. O que se vê é precisamente o contrário, uma filha que continua a procurar a mãe, que tenta reaproximar-se, que faz vários esforços para não perder essa ligação. Este comportamento pode ser entendido como uma tentativa de reparação. A filha percebe que algo se partiu na relação e sente que precisa de fazer alguma coisa para recuperar o afeto perdido pela mãe alienadora. Liga, insiste, propõe encontros, pede para ser recolhida. Cada uma destas ações mostra uma esperança e a ansiedade com que é vivida. Há uma necessidade intensa de garantir que a mãe alienadora continua ali e que não a abandonou emocionalmente. A persistência neste esforço mostra também o peso do medo. Matilde não tenta apenas manter contacto, tenta evitar que a mãe alienadora fique zangada com ela. Isto sugere que a Matilde já não vive a relação de forma segura, mas sim com a preocupação constante de, em vez de poder amar os dois pais com tranquilidade, precisar de gerir emoções que não devia ter de carregar, passando então a agir para acalmar a mãe alienadora, proteger a relação e evitar uma nova rejeição.

Outro aspeto doloroso neste testemunho é a repetição da frustração. A mãe alienadora diz que sim aos encontros, mas depois não aparece. Para uma criança, este tipo de resposta é profundamente desorganizadora. Mantém a esperança viva, mas logo a seguir transforma-a em ausência. Esse movimento repetido de aproximação e falha pode gerar confusão, tristeza, insegurança e uma sensação persistente de não saber com o que contar.

Este padrão de relação tem consequências importantes no mundo emocional da criança alienada. Em vez de a relação com a mãe ser securizante, passa a ser vivida como algo instável, imprevisível e dependente de fatores que a filha não controla, fazendo com que comece a sentir que tem de se esforçar sempre mais para merecer a presença do outro, mesmo quando o afastamento não depende dela.

Além da dor da rejeição, esta situação provoca a dor de continuar a amar e a procurar alguém que responde de forma intermitente ou ausente. É precisamente isso que torna o sofrimento tão profundo, a criança alienada não desiste da relação, mesmo quando a relação parece desistir dela.

A intensidade deste esforço tornou-se ainda mais evidente no seguinte relato de Artur: “A Matilde chegou a escrever uma carta. Escreveu para a mãe, para tentar que ela não ficasse zangada, a dizer que gostava dela, que estar com o pai não significava deixar de estar com a mãe. Fez muitos esforços para não perder a ligação com a mãe. Mas, no fundo, a mensagem que recebia era sempre a mesma, se decidiste ficar com o teu pai, então esquece-me completamente”.

A redação da carta surgiu como uma tentativa de reparar uma relação que sentia ameaçada. Ao escrevê-la, a Matilde procurava dizer algo essencial – amar o pai alienado não significa deixar de amar a mãe alienadora, procurando defender o seu direito de continuar ligada aos dois, sem ter de escolher. Isso mostra um conflito interno muito intenso. A Matilde percebeu que a relação com a mãe estava em risco e sente necessidade de provar que não tinha traído, que continuava a gostar dela, que não a estava a abandonar. Em vez de viver uma relação com espontaneidade, passou a vivê-la com medo de perder o amor da mãe. A carta, neste sentido, não é apenas um gesto afetivo, é também um pedido de aceitação e de segurança.

Matilde pareceu sentir que a manutenção da relação dependia dela. É como se a responsabilidade de reparar o vínculo recaísse sobre a própria criança. Isto é emocionalmente muito pesado, porque sujeitou a Matilde a ter que desempenhar uma tarefa que não lhe pertence, a de tentar resolver com palavras e com afeto um conflito que está acima das suas capacidades e que deveria ser sustentado pelos adultos/pais.

O testemunho “estar com o pai não significava deixar de estar com a mãe” mostra, de forma muito clara, a posição difícil em que Matilde foi colocada. Ela tentou afirmar algo que deveria ser natural, que podia gostar dos dois, que podia estar com os dois, que uma relação não anula a outra. Quando uma criança precisa de explicar isso a um dos pais, é um sinal de que está a viver um conflito de lealdades muito profundo.

Neste testemunho mostra-se não apenas o esforço de uma filha alienada, mas também a solidão desse esforço. Matilde tentou, explicou, escreveu, pediu e insistiu. E, ainda assim, continuou a receber uma resposta de afastamento por parte da mãe, um comportamento claramente manipulador e alienador. Foi precisamente a repetição desse comportamento que tornou o seu sofrimento tão profundo.

No seu conjunto, esta fase do percurso de Artur revela como decisões e comportamentos de adultos/pais podem ter um impacto profundo na vivência emocional dos filhos, sobretudo quando se traduzem em gestos de rutura e exclusão. Mostra também a persistência do esforço de uma filha alienada para manter a ligação com a mãe alienadora, mesmo em condições adversas, evidenciando a importância das relações afetivas na construção do seu equilíbrio emocional.

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