Escrever no escuro
No jardim público, sob a sumaúma trazida pelo vendaval, debaixo dos plátanos, a jovem mãe dá de mamar ao filho, o casal idoso come a merenda que trouxe de casa, o pai observa a filha a descer o escorrega, um filho empurra a cadeira de rodas da mãe nonagenária.
Eu sento-me num banco e imagino que escrevo de olhos fechados, que fui privada da visão e que tenho de escrever sem ver.
Foi Derrida quem aventou a possibilidade, em Memórias da Cegueira: o Auto-Retrato e Outras Ruínas, de que, nesses casos, os olhos se deslocam para a ponta dos dedos, “um único olho ciclópico”, era o que afirmou, que vê no escuro e guia a mão sobre a folha.
Vêm-me à cabeça coisas que li e ouvi nos últimos dias, hipérboles, prosa conseguida, conversas, caras que tento pôr por palavras sem ser capaz, toda a genealogia dos trejeitos da boca nas mulheres maduras, a grande ruína que é a quebra dos lábios nas extremidades, os olhos dos mal-amados, cheios de dor quase alegre, quase vingativa, vem à memória aquele Maurício de que falava Ruy Belo, que faltou às aulas toda a manhã, desafiando os professores, para jogar basket apenas, sozinho, por quem o jovem Ruy sentiu, como escreve, a mais profunda “admiração”: e como um destes pássaros que há por aqui, ou como a gata cujo miar me faz companhia enquanto escrevo de noite, sozinha e lamentosa sobre um muro, ela, cantante e afinado o pássaro que nunca vi, como eles estou no jardim alguns minutos a tentar afinar-me com as coisas e as pessoas, à procura de afinar a mão, ao longe, sobre a relva, celebra-se um aniversário. Trouxeram balões que dizem trinta e três e muitas pessoas cantam os parabéns contagiando o jardim, onde parece não chegar o fumo queimado da vida.
As árvores balançam, migrantes, filhos da terra, doentes, os alegres, os pobres, os tristes, os que estão bem na vida. Num grande abraço democrático, o jardim restaura o ânimo de todos por igual. É, ao domingo, lugar de recolhimento para quem não tem casa e para quem a tem, para os felizes e os miseráveis, os bons e os maus.
“Quando eu era pequeno”, diz-me ele, “todos saíam à noite e sentavam-se nesta esplanada. Comiam-se gelados. Conversava-se. Eu brincava por aqui, corria, ficava suado.”
Recordo esse suar da infância, quando corríamos esbaforidos e parávamos junto à mesa dos adultos, em pausas na brincadeira, ofegantes, para nos assegurarmos de que eles estavam por perto. A sensação única, para sempre perdida, de correr até ficar tonta mas haver por perto quem tomava conta de nós. A chegada à mesa dos crescidos, onde havia coisas que nos eram proibidas, café, cinzeiros, isqueiros. Os perfumes adultos, quando nos chegávamos ao seu pescoço para ouvir dizer que tínhamos de ter cuidado para não nos magoarmos. Falo no plural, porque a dança em volta da mesa era minha e dos meus primos, não estava sozinha. E bebíamos um gole de água — e continuávamos.
Têm-me oferecido jardins, avenidas, praias, nuvens. Ser adulta onde quem amo foi criança traz-me a história das coisas, permite-me ver um pouco do passado dos lugares que hoje habito.
Mas há coisas que são novas, como a lindíssima muçulmana que passou por mim na quarta-feira, com o seu hijab azul-escuro, quase negro, levava um casaco e uma saia brancos, os olhos vivos, defensivos e curiosos, cor de amêndoa.
Ou a fotografia que hoje revejo, teria oito anos, era o meu aniversário, e corro passeio fora, entre as árvores, enquanto tento fazer voar um papagaio de papel. A alegria é tanta que a imagem não a matou. Sou mesmo eu, noutro tempo, mas é agora. E é a sugestão desse instante, o papagaio no ar enquanto corro, a energia da menina, olhá-la de frente, sem saudades do passado, sem me comover, é já o jardim a lavar-me os olhos, a conduzir-me no escuro, perto dos outros.
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