Escrever no escuro
No jardim público, sob a sumaúma trazida pelo vendaval, debaixo dos plátanos, a jovem mãe dá de mamar ao filho, o casal idoso come a merenda que trouxe de casa, o pai observa a filha a descer o escorrega, um filho empurra a cadeira de rodas da mãe nonagenária.
Eu sento-me num banco e imagino que escrevo de olhos fechados, que fui privada da visão e que tenho de escrever sem ver.
Foi Derrida quem aventou a possibilidade, em Memórias da Cegueira: o Auto-Retrato e Outras Ruínas, de que, nesses casos, os olhos se deslocam para a ponta dos dedos, “um único olho ciclópico”, era o que afirmou, que vê no escuro e guia a mão sobre a folha.
Vêm-me à cabeça coisas que li e ouvi nos últimos dias, hipérboles, prosa conseguida, conversas, caras que tento pôr por palavras sem ser capaz, toda a genealogia dos trejeitos da boca nas mulheres maduras, a grande ruína que é a quebra dos lábios nas extremidades, os olhos dos mal-amados, cheios de dor quase........
