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O mundo bebe menos vinho, e Portugal é a exceção

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30.09.2026

Escrevo-vos com a memória fresca de uma tarde passada nas vinhas de Stellenbosch, a menos de uma hora da Cidade do Cabo. É uma paisagem que qualquer português reconheceria sem esforço, encostas ordenadas, filas de cepas a perder de vista, adegas caiadas de branco ao fundo. E, como em tantas encostas do Douro ou do Alentejo, uma inquietação que ninguém diz à primeira taça, mas que aparece sempre à segunda. O mundo está a beber menos vinho, e ninguém sabe ao certo quando isso para.

Comecemos pelos números, que neste caso são de arrepiar. Segundo a Organização Internacional da Vinha e do Vinho, o consumo mundial caiu 2,7% em 2025, para 208 milhões de hectolitros. É o valor mais baixo desde 1957. Desde 2018, a queda acumulada chega aos 14%. Nove dos dez maiores mercados do planeta recuaram, incluindo os Estados Unidos, o maior de todos, que perdeu 4,3%. E a superfície mundial de vinha encolheu pelo sexto ano consecutivo, para sete milhões de hectares.

Reparem no que esta última frase significa, porque é a mais grave de todas. Quando o consumo cai, arranca-se vinha. E vinha arrancada não é uma linha num relatório, é uma encosta que muda de cara, uma família que deixa de ter rendimento e uma aldeia que perde a razão de existir onde está.

A pergunta seguinte é a mais interessante, porque a resposta fácil está errada.

A tentação é dizer que os jovens de hoje não sabem viver. Poupo-vos a esse sermão, primeiro porque não me compete, segundo porque os dados dizem outra coisa. O que está a acontecer não é decadência, é substituição. As gerações mais novas bebem menos álcool no total, é verdade, mas sobretudo distribuem-no de outra maneira. Segundo o instituto IWSR, um em cada dois consumidores de vinho declara moderar ativamente o consumo, e os mais novos mostram muito menos lealdade a uma categoria de bebida, saltando entre vinho, cerveja, destilados e opções sem álcool consoante a ocasião. Junte-se o preço, porque uma cerveja é mais barata do que uma garrafa, e junte-se a saúde, que hoje pesa na decisão de quem tem vinte e cinco anos como não pesava na de quem tinha vinte e cinco em 1990.

Ou seja, o vinho não perdeu uma geração por antipatia. Perdeu a exclusividade que tinha à mesa, e está a competir, pela primeira vez em séculos, num mercado onde o cliente experimenta tudo e não se casa com nada. É um problema comercial, não é um problema moral, e tratá-lo como o segundo é a maneira mais garantida de não o resolver.

E agora a parte que vos vai agradar, e que por acaso é verdade.

Entre os dez maiores mercados mundiais, houve um, e apenas um, que cresceu.........

© Observador