Madrid em turbulência. Lisboa em modo ‘no lo sé’
Portugal tem uma forma peculiar de acompanhar a política internacional.
Discutimos eleições americanas como se tivéssemos mesa de voto em Ohio.
Seguimos cada frase de Emmanuel Macron como se fosse dirigida diretamente à Assembleia da República.
Analisamos a política britânica com a atenção de quem ainda espera receber um convite para Westminster.
É uma curiosa forma de fazer análise internacional: olhamos para Washington com lupa, para Paris com telescópio e para Londres com um entusiasmo quase sentimental.
Entretanto, há um pequeno detalhe geográfico que parece escapar-nos.
O país com quem partilhamos mais de mil quilómetros de fronteira, o nosso principal parceiro económico e o sistema político e social (potencialmente) mais comparável ao nosso atravessa um dos períodos mais tensos da sua democracia recente e, ainda assim, em Portugal o tema surge muitas vezes apenas como nota de rodapé.
O silêncio é curioso. Porque o que se passa em Espanha não é trivial.
Desde as eleições de 2023, o governo de Pedro Sánchez vive numa situação parlamentar particularmente frágil. O Partido Popular foi a força mais votada, mas não conseguiu formar governo. O Partido Socialista acabou por permanecer no poder através de uma maioria construída com partidos de esquerda e com formações regionais e independentistas.
Nada disto é ilegal. Nem sequer é inédito numa democracia parlamentar, como bem sabemos.
Mas tem um preço político e, em Espanha, esse preço já não é um “custo de governabilidade”: é o próprio método de governo.
Um dos sinais mais claros dessa fragilidade é a dificuldade em aprovar orçamentos. Espanha continua a funcionar com contas prorrogadas, adiando o que........
