A Henrique Raposo, de um fariseu
Ao contrário do que é comum nos meus círculos – e desconfio que, se abrir mais o compasso, não será diferente – tenho bastante simpatia pelo Henrique Raposo. Admiro-lhe a capacidade de explicar uma ideia em poucas palavras, de procurar sempre ângulos que falem aos destinatários menos óbvios para o que escreve e a facilidade com que consegue transformar qualquer assunto numa ideia política.
Percebo que quem escreve num espaço curto não tem tempo para grandes subtilezas, nuances e contra-factos, pelo que não me fazem espécie as generalizações mais aventureiras (basta um bocadinho de boa vontade para se perceber que, quando fala da “esquerda”, ou da “direita”, se subentende um “em geral” que pode não abarcar toda a gente) e mesmo quando se atira para fora de pé, esbraceja com competência suficiente para criar um espetáculo admirável. Ou seja, as coisas até podem não ser como ele diz, e pode lutar muitas vezes contra moinhos de vento, mas são ainda assim uns belos moinhos de vento.
Também não me incomoda especialmente o tom (Convicto? Duro? Antipático? Mal-criado?) que parece perturbar tanta gente; é verdade que um tom muito contundente é especialmente irritante quando é usado para dizer coisas que nos parecem erradas, mas não deixo de achar bonito ver alguém defender com firmeza aquilo em que acredita, mesmo que isso indisponha até aqueles que podiam estar ao seu lado (e contra quem ele parece espadeirar com mais vontade ainda). O Henrique Raposo acredita sempre que está a tratar assuntos importantes, e isso nota-se e dá vitalidade ao que escreve: ainda há umas semanas, a folhear umas revistas Ler antigas, notava isso nos textos dele. Tem uma capacidade que admiro para tornar políticos mesmo os assuntos aparentemente mais teóricos, como admiro quem consegue sair da atrelagem do seu campo ideológico, como consigo perceber a sua fúria de cruzado e ignorar todos os defeitos tão visíveis tanto no que diz, quanto no modo como diz. Num elenco de opiniões simplistas e brutalidades desajustadas proferidas por Henrique Raposo, provavelmente não teria dificuldade em reconhecê-las a todas como simplistas e brutas; apesar disso, e porque percebo as........
