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Anatomia de um Regresso Anunciado

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01.03.2026

No grande teatro da política portuguesa, onde o ruído de fundo se tornou a banda  sonora oficial, há momentos de uma clareza quase ofensiva. Pedro Passos Coelho  falou. E o país, esse velho animal domesticado pelo barulho, foi forçado a admitir  que andava a escutar a melodia errada.

Desmembremos o acontecimento, com a calma de quem sabe que a pressa é  inimiga da precisão.

Passos Coelho é um corpo estranho no ecossistema político nacional. Uma  anomalia. Incomoda porque a sua espinha dorsal não adquiriu ainda a flexibilidade  gelatinosa que a sobrevivência no pântano exige. Incomoda porque o seu discurso  não soa a um produto pasteurizado por comités de imagem e validado por “focus  groups”. Incomoda, sobretudo, por pertencer a uma estirpe em acelerada via de  extinção: a dos políticos que parecem ter lido um livro antes de escrever um  discurso e que, suprema heresia, governaram antes de mandar bitaites.

E é por essa mesma razão que a sua existência se torna não apenas incómoda, mas  absolutamente necessária.

É preciso recordar o óbvio, porque a memória nacional é curta e seletiva. Este  homem não foi derrotado nas urnas. Não é um pormenor biográfico; é uma ferida  mal cicatrizada no corpo de um sistema que adora construir consensos sobre os  cadáveres dos seus inimigos. Venceu duas eleições. Contra a maré, contra a  gritaria, contra a máquina de propaganda que já montava a “geringonça” antes de  esta ter nome. Governou com a troïka a servir-lhe o pequeno-almoço e a oposição  a envenenar-lhe o jantar. E cumpriu. Cumpriu o que prometeu, pagou o que devia,  endireitou a postura de um........

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