Ignorância e desordem global
Confirmou-se que o cenário mais provável e “mais racional para os EUA, e também para o Irão” é um cessar-fogo, mesmo frágil, que permitisse aos EUA e ao Irão declararem vitória e focarem-se em prioridades internas. Como já tinha previsto, o maior obstáculo seria o governo de Israel e a questão do estreito de Ormuz. Apesar de ser um cessar-fogo parcial e precário, Trump já declarou vitória total, como não podia deixar de ser. Isso significa também que, para já, o regime teocrático iraniano sobrevive. A ignorância afoita é infelizmente um fenómeno frequente e muito antigo, mas torna-se especialmente perigosa quando é apanágio dos poderosos.
Império da ignorância
Quem não sabe o que ignora, nem quer saber, sente-se livre para pregar e praticar muita asneira. Hoje, a ignorância é mais ousada, resultado da confusão entre o direito à liberdade de expressão e a falsa ideia de que todas as opiniões são igualmente válidas. Claro que todos têm o direito de dizer os disparates que quiserem; mas isso não os torna menos disparatados, nem abole o direito dos outros de os denunciar e criticar. A ignorância afoita é hoje mais visível devido às redes sociais, mas o ignorante afoito sempre existiu. Raphael Bluteau, o estrangeiro “curioso” apaixonado pela nossa língua, escrevia com acerto, em 1727, na prefação do suplemento do seu dicionário:
“Notáveis privilégios são os da ignorância: o ignorante […] em apurar verdades não cansa o entendimento, nas academias não dá conta dos seus estudos […]. Sem frequentar as escolas, tem confiança para se insinuar nos congressos dos sábios. […] O mais besta de todos é o ignorante enfronhado em filosofias, que sonhou ter aprendido sem mestres e que, para saber, não há mister de livros.”
A descrição lembra-vos o líder de alguma grande potência atual? Não me darei ao trabalho de identificar quem melhor corresponde, hoje, a este retrato-robot. Se alguns leitores se irritarem com a identidade do suspeito ou, quiçá, se reconhecerem no retrato, poderão sempre aproveitar a caixa de comentários para exibir a sua falta de educação, de maneiras, de leituras e de entendimento – próprios do ignorante afoito.
O que fui procurar ao dicionário de Bluteau? Uma definição de império. Não a encontrei. Encontrei, sim, o verbete relativo a emperador. (Hoje escrevemos imperador, mas a ortografia tradicional – de........
