A renovação da carta de condução
«Vire-se para a esquerda, e agora para a direita. E repita o que eu vou dizer».
Foi isso o que me foi dito para fazer, logo ao princípio, pelo médico de fartas sobrancelhas de quem dependeria o meu imediato futuro de condutor de veículos ligeiros.
Restava-me cumprir o ordenado: era o salário possível.
À esquerda, uma parede branca; à direita, uma branca parede. E papagueei corretamente as curtas frases que ele, cochichando, me transmitiu.
Depois, fechei os olhos e toquei o nariz, o meu nariz, com o indicador da mão direita, e o mesmo com o indicador da mão esquerda. Sem jeux de mots, tudo aconteceu, e sem surpresas, num fechar de olhos.
No fim, ainda me mandou levantar em simultâneo os dois braços, como fazem nas arenas os homens das bandarilhas. Assim se concluiu a segunda e penúltima fase daquela inspeção médica: nada de novo a Oeste, tudo como d`antes. Mais cinco minutos, e estaria de saída. Julgava eu.
«O que me diz desta sopa de letras?», interrogou-me apontando para o habitual quadro com filas de letras de diferentes dimensões, pendurado na terceira parede. Era esta a derradeira etapa a percorrer antes do veredito final do júri unipessoal. Após os bons resultados nas precedentes provas de aptidão, sentia-me confiante em relação a esta última dirigida às........
