UE - O estado da política para lá da política do Estado
O estado da política para lá da política do Estado é especialmente sensível no quadro europeu e, em particular, no âmbito da União Europeia. Neste âmbito, a pluralidade da arquitetura espácio-temporal europeia e a heterocronia dos vários futuros, não apenas reclamam a necessidade urgente de ensaiar o policy-framework do futuro, como o exercício da prospetiva se torna, digamos, um imperativo categórico. Se a heterocronia é extraordinariamente variável, a repolitização do futuro estará lá, em princípio, para criar estabilidade, verosimilhança, confiança, inteligibilidade, diálogo sério e sereno entre os parceiros europeus.
Quando me refiro à pluralidade e heterocronia da arquitetura espácio-temporal no plano europeu, reconheço que o tempo institucional é demasiado rápido para alguns e demasiado lento para outros, que existe o tempo lento das constituições, o tempo moderado das legislaturas, o tempo curto da ação executiva, o tempo imediato da comunicação social, e que as ideias de causalidade e linearidade já não colhem como antigamente. Hoje, esta pluralidade de tempos precisa de ser muito bem articulada entre si e, do mesmo modo, a linha de comunicação da democracia representativa terá de ser, necessariamente, mais horizontal e circular do que vertical, apesar de todos os dias observarmos o contrário.
A política europeia é, porventura, o melhor exemplo de transformação da política em tudo o que se refere à sua ambição e redefinição dos limites. Desde logo, nos processos de tomada de decisão entre instituições, depois nos limites entre políticas maioritárias e políticas consensuais, finalmente, na arte do agir comunicacional, onde o discurso político deu lugar à arte da retórica, a uma espécie de branqueamento das posições políticas, lá onde a administração dos interesses e lobbies toma o lugar da governação política.
Na política europeia a arte da retórica é o reino do procedimento e da neutralidade possíveis. Esta é, aliás, a razão pela qual a União Europeia não suporta uma ordem constitucional, que fecha em vez de abrir. A sociedade, a economia e a política já não podem ser abordadas dessa forma, unitariamente. Ao contrário, ser europeu é uma mais-valia fundamental, pois o nosso horizonte de aspirações, expetativas e valores alarga-se........
