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Douro: vinho a mais ou valor a menos?

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26.10.2026

Diz-se no Douro: produzimos demasiado, consumimos menos e os stocks estão elevados. É  provavelmente parte da explicação para a crise que atravessa a viticultura duriense. Mas será toda a  explicação? Quem vive da vinha começa a fazer perguntas para as quais ainda não encontrou respostas  suficientemente convincentes.

Na verdade, há uma pergunta que, mais cedo ou mais tarde, teremos de fazer no Douro: se há vinho  suficiente para abastecer o mercado, porque deixou de haver mercado para todas as uvas? A resposta mais imediata parece simples. Produzimos demasiado, o consumo de vinho tem vindo a  diminuir, os stocks são elevados e, consequentemente, quem compra vinho precisa de comprar menos  uvas. É uma explicação que tem fundamento e seria absurdo ignorá-la.

Mas talvez não seja a explicação toda.

Quem trabalha diretamente com a vinha percebe que alguma coisa mudou de forma particularmente  profunda nos últimos anos. Durante muito tempo, vender as uvas produzidas numa vinha era, apesar  de tudo, uma parte relativamente previsível da atividade. Havia procura para as uvas destinadas ao  benefício do Vinho do Porto e havia também procura para as restantes uvas, destinadas à produção de  vinho do Douro ou a outros destinos. Os preços podiam variar, naturalmente, mas existia um mercado.

Hoje, em muitas situações, a dificuldade já não está apenas no preço. Está em encontrar quem compre. E esta diferença é importante.

O Douro não produz como as outras regiões 

A viticultura duriense tem uma particularidade que não pode ser esquecida quando se fala de  excedentes, preços e competitividade. Produzir uma tonelada de uvas no Douro não é o mesmo que a produzir numa região onde a mecanização é simples, as parcelas são grandes, o terreno é plano e os  rendimentos por hectare podem ser elevados.

No Douro há socalcos, muros, declives, pequenas parcelas, acessos difíceis, trabalho manual, mão de  obra que vai rareando, custos elevados de manutenção e uma mecanização que, em muitas vinhas, é  limitada ou simplesmente impossível. Por outras palavras, é uma viticultura cara. E é precisamente por isso que o Douro não pode competir numa lógica de simples mercadoria  indiferenciada. Uma região com estes custos só consegue sobreviver se conseguir transformar a  origem, a qualidade, a paisagem, a história e a reputação em valor económico. Ou seja: o Douro não pode ganhar pela quantidade. Tem de ganhar pelo valor. Mas quando esse valor não chega ao produtor, toda a equação começa a falhar. A vinha deixa de ser suficientemente remuneradora, a produção deixa de ter interesse económico, os  proprietários começam a questionar se vale a pena manter determinadas parcelas e, a prazo, aquilo que  desaparece não é apenas uma atividade agrícola. Desaparece também a paisagem que tornou o Douro  aquilo que é.

Há vinho barato. E há uma pergunta que merece ser feita 

Há ainda outra realidade que não pode ser ignorada.

Quem trabalha no sector recebe regularmente ofertas de vinho a granel proveniente de Espanha, em  grandes quantidades e a preços que, para a viticultura duriense, são difíceis de acompanhar: vinhos prontos, já com transporte incluído a partir de 0,30 Euros/litro, ou até menos. Não há nada de ilegítimo,  por si só, em comprar ou vender vinho num mercado europeu aberto, e não disponho de elementos que permitam afirmar que essas operações sejam portadoras de qualquer tipo de irregularidade. Mas a verdade é que o fenómeno económico existe. E existe há vários anos.

As ofertas comerciais que chegam ao sector incluem vinhos tintos, brancos e rosés, em volumes de  dezenas ou centenas de milhares de litros, a preços que se situam muito abaixo daqueles que seriam  necessários para remunerar uma viticultura de montanha como é particularmente a do Douro. A questão não é saber se o vinho espanhol ou de outro país é “mau” ou se o vinho duriense é “melhor”.  Não é sequer necessário presumir qualquer prática de concorrência desleal para perceber o problema.

Basta reconhecer uma coisa simples: quando dois produtos ocupam o mesmo espaço no mercado e um  deles chega ao consumidor a um preço significativamente inferior, existe pressão sobre o outro. A origem dessa vantagem pode estar na dimensão das explorações, na mecanização, nos rendimentos  por hectare, nos custos de mão-de-obra, na estrutura fundiária ou simplesmente na eficiência produtiva.  Não devemos confundir uma vantagem competitiva legítima com uma prática de dumping ou com  qualquer forma de irregularidade, sem provas.

Mas também não devemos fingir que a diferença de preço não existe.

E aqui aparece uma questão que raramente é colocada com suficiente clareza: o mercado consumidor  não é infinitamente elástico.

Um consumidor que compra uma garrafa de vinho mais barata não está necessariamente a comprar  uma garrafa de Douro a menos. Mas, no conjunto do mercado, a substituição existe. O orçamento  disponível é limitado, o espaço nas prateleiras é limitado, a rotação dos produtos é limitada e a  capacidade de um consumidor comprar vinho todos os dias também é limitada.

Quando um vinho de preço muito baixo conquista espaço no mercado, isso pode reduzir a rotação de  outros vinhos. Se a rotação diminui, os distribuidores compram menos. Se compram menos, as  empresas produzem menos. E se produzem menos, compram menos uvas.

É assim que uma pressão aparentemente distante da vinha pode acabar por chegar ao viticultor.

E o consumidor sabe sempre exatamente o que está a comprar? 

Há outra questão que merece ser discutida com serenidade.

No mercado português encontramos vinhos que, pela designação comercial, pela imagem ou pela  associação a determinada localidade, podem transmitir ao consumidor uma perceção de origem  regional, embora juridicamente a sua classificação seja outra.

Não estou a afirmar que exista aqui qualquer violação das regras de rotulagem. É precisamente para  isso que existem normas e entidades de........

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