Um país que agora é que ia ser
Desde 1578 que Portugal é um plano de recuperação. Plano de recuperação de Alcácer-Quibir, da perda do rei, do último da dinastia real, de um terço do exército e do rombo nas finanças públicas, cavado a pagar resgates de feridos e prisioneiros. Que é como quem diz, há quase 500 anos que andamos a tentar recuperar. Que azar que, depois, aconteça sempre mais qualquer coisa.
Tivemos de recuperar da dominação espanhola. 60 anos de Filipes. De como nos destruíram os navios nas guerras deles e abandonaram o império à sua sorte. Depois, foi preciso recuperar das despesas que fizemos a pagar o apoio de Inglaterra à nossa nova dinastia e renovada independência. Demos Mumbai e concentrámo-nos no Brasil, de maneira que foi preciso recuperar da dependência do ouro e dos diamantes, de termos fechado as fábricas cá, de perdermos o Índico, de pagarmos tudo caríssimo, porque não produzíamos nada, mas tínhamos a maldição de ter imenso dinheiro. Por isso, depois houve que recuperar dos excessos de Dom João V e dos do Marquês, do Terramoto e da expulsão dos jesuítas, das invasões francesas, da fuga para o Brasil e do regresso do Brasil, da independência do dito e da Guerra Civil.
Ainda mal recuperávamos do trauma e já nos víamos na contingência de ter de recuperar do Ultimato Inglês, do regicídio e do caos da Primeira República. Da Primeira Guerra, da desgraça de La Lys e da gripe espanhola. Quem diria que só a seguir é que vinha a causa geralmente atribuída ao atraso disto tudo e que teríamos para todo o sempre de recuperar: Salazar e os 48 anos de ditadura, mais a Guerra do Ultramar?
De maneira que, em 74, pois claro, iniciou-se novo plano de recuperação. Do Estado Novo, do “orgulhosamente sós”, da PIDE e da censura, do fim da guerra e do do império colonial, da necessidade de absorver, de repente, meio milhão de “retornados”. Então, tivemos de recuperar do pedido de ajuda externa de 1978, e do de 83, da morte de Sá Carneiro e das feridas do PREC. Recuperar o atraso para entrar na Europa, recuperar dos vícios da maioria absoluta de Cavaco e do pântano da maioria relativa de Guterres.
Veio o século XXI e ter de recuperar tornou-se ainda mais frequente.
Dos impactos do 11 de Setembro, do alargamento da Europa a leste, da crise do subprime e da das dívidas soberanas, dos desmandos dos anos Sócrates, da troika e da pandemia. E eis que, estávamos nós ainda entretidos a redesenhar e reafectar o Plano de Recuperação e Resiliência da dita, e se metem a Guerra da Ucrânia e a do Irão, mais a das tarifas e a inteligência artificial, que ninguém previa, ninguém estava a ver, e sabe-se lá no que vai dar, dizem que vai mudar isto tudo.
É sina, é o fado. Tínhamos um país super-preparado para não acontecer nada, mas está sempre a acontecer tudo. Quando não é o tempo, é a natureza; quando não é a natureza, é a História.
Mas agora temos um plano novo. Agora é que vai ser.
Já tínhamos sigla, agora temos tudo: logótipo, assinatura, prazos, valores – até “pilares”. Muitos verbos no infinitivo, muitos “mais” qualquer coisa: “mais preparado, mais forte, mais resiliente”. Chamou-se o governo em peso, uns autarcas relevantes, até o procurador-geral da República, e fez-se a apresentação: 22,6 mil milhões de euros para “recuperar”, “proteger”, “responder”. Tudo por um “Portugal Preparado”. Sorrirão com a ironia as pessoas há três meses à espera de um tecto de se fazer a apresentação debaixo da mítica pala de Siza Vieira para o pavilhão de Portugal na Expo 98? O pavilhão representativo do país e que, tão representativamente, andou anos abandonado? Sem plano?
22,6 mil milhões de euros para investir até 2034. Parece muito – o PTRR é maior do que o PRR, quem diria? Portugal vai dar mais dinheiro a si mesmo do que a Europa a Portugal. Como estamos crescidos! – mas lembre-se que é a dividir. A dividir “entre fundos públicos nacionais (37%), financiamento privado (34%) e fundos europeus (19%)”, diz a síntese informativa do Governo, com o detalhe inquietante de esta conta só dar 90 e não 100%. A dividir por nove anos, em que teremos sabe-se lá mais quantos governos, com os quais a nova “pequena agência” a criar para gerir o plano terá de se entender, logo vemos como. Porque, entre as medidas, cabem todos os sonhos do mundo, já dizia Fernando Pessoa, como as “reformas do Sistema Nacional de Proteção Civil e do INEM”, a “nova Lei da Calamidade” ou a “agenda nacional para o desenvolvimento e a fixação populacional nos territórios de baixa densidade”, que, mereceria por si só, todo um programa detalhado de governo – aliás, vários.
A chatice é se, daqui até 2034, nos acontece mais alguma. Sempre são nove anos, não é? Mas não agoirem, não vai acontecer. Desta é que é. E se não for, logo se vê. Cria-se outro plano. Ninguém nos bate aos planos. Podíamos fazer planos para fora. Planos com pastéis de nata, planos em lenços de namorados, planos em forma de assim. Afinal, somos Portugal. A recuperar desde 1578.
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