Como levar cartão amarelo por não ser batoteiro
Há um problema novo no futebol português: a verdade. Não é um daqueles problemas tradicionais - como as arbitragens ou os especialistas em VAR -, é uma novidade desconfortável. Alguém resolveu dizer a verdade dentro de campo e o sistema, apanhado desprevenido, reagiu em pânico: com um cartão amarelo.
Durante anos, combateu-se a simulação com discursos sobre ética, valores e fair-play. Prometeu-se um futebol mais limpo, mais justo, quase pedagógico. Tudo isto enquanto, em campo, se continuava a cair com uma convicção dramática digna de um Óscar - e, nalguns casos, de uma carreira internacional. E eis que surge Luis Suárez, avançado do Sporting, a estragar o guião. Cai na área, o árbitro marca penálti, o país prepara-se para o costume - repetições, ângulos, debates, especialistas a desenhar linhas como se estivessem a planear uma autoestrada - e Suárez faz o impensável: levanta-se e diz que não é penálti. Assim, simples. Sem teatro, sem protestos, sem olhar para o céu em busca de apoio divino ou, pelo menos, de um replay favorável. Diz a verdade.
O árbitro revê o lance, o VAR confirma que não houve falta, tudo indica que o episódio vai terminar de forma civilizada, quase escandinava. Mas isso seria pedir demasiado. Resultado: cartão amarelo por simulação. O jogador não simulou, explicou que não era penálti, mas como caiu - e como cair na área é sempre visto como suspeito reincidente - o árbitro, por uma espécie de tradição do campeonato, dá amarelo na mesma. Não interessa o que aconteceu; interessa que a decisão não vacile, mesmo quando os factos a desmentem. É o equivalente desportivo a ser multado por parar num STOP às três da manhã, numa rua deserta - não por infringir a regra, mas por a cumprir com excesso de convicção, enquanto um agente policial, visivelmente incomodado, explica que assim não dá, que o trânsito tem de fluir.
Fica a dúvida: o que deve fazer um jogador nestes casos? Simular é errado, dizer a verdade também não ajuda. Talvez o ideal seja cair, levantar-se e declarar-se neutro: "não confirmo nem desminto". A verdade, no futebol português, não é proibida. É apenas inconveniente, deslocada, quase indelicada. É como levar um livro para uma festa ou pedir recibo num café - tecnicamente admissível, mas socialmente perturbador.
O árbitro esteve mal. E não foi pouco. Conseguiu algo raro: transformar um gesto de fair-play num caso disciplinar. É obra. Num futebol onde enganar o árbitro faz parte do folclore, Suárez foi castigado precisamente por não o tentar fazer - o que pode ser visto como excesso de zelo... ou uma fidelidade excessiva a um erro inicial. Porque, no futebol português, já se aceita tudo - menos isto: um jogador honesto a estragar uma boa decisão errada.
