Com um golo destes, qualquer treinador parece um iluminado tático
Foi uma semana europeia cheia e deslumbrante. Começou na goleada-remontada épica (de 0-3 para 5-0) do Sporting, versão "alheira mecânica" de Rui Borges, e teve outra reviravolta (de 0-2 para 4-0) do Braga, frente ao confundido Ferencváros, mas que acabou por ser até natural. Com o "Vicens-ball" na sua melhor versão, os golos surgiram cedo, com a facilidade criada pelas combinações dos avançados criativos bracarenses, a melhor "Horta de futebol" com bola do futebol português quando decide jogar o que sabe.
Há dois mapas traçados na Liga Europa que podem levar a uma final portuguesa e ambos parecem bem desenhados para as duas equipas.
Este "FC Porto europeu" é uma versão alternativa do onze de gestão física que apresenta, preservando as melhores peças para o campeonato, mas mantendo os mesmos princípios.
A tentação, porém, ao entrar nesta segunda mão, a jogar com a vantagem trazida de Estugarda, levou a equipa a viver demasiado na organização defensiva, porque sente ter nela o seu argumento tático mais forte para controlar os jogos. Não o sabe fazer com bola. Está no oposto dessa ideia, ao contrário do Braga de Vicens, embora menos objectiva na sua posse.
Dessa forma, assumiu o risco de dar ao onze alemão a iniciativa ofensiva do jogo. Um risco que podia ter virado o resultado. Não aconteceu porque, nas costas desse onze, está um último "guarda-costas" que, na baliza, manteve a vantagem num dos jogos em que o processo defensivo da equipa funcionou pior, quer ao não fechar espaços (fazendo a "linha de 5" mal os alemães pegavam na bola), quer ao não pressionar na frente no início da construção adversária.
As defesas de "pássaro voador" que fez Diogo Costa (negando quatro golos feitos) permitiram depois aqueles contra-ataques, temperados com ressaltos, que deram dois golos, com uma "bomba" final de Froholdt que até deixou Farioli de olhos esbugalhados, boca aberta e mãos na cabeça.
Com um golo destes, qualquer treinador parece, de repente, um iluminado tático, mesmo num jogo em que a sua equipa nunca teve o controlo do jogo.
As duas equipas vão agora defrontar-se no campeonato. Pode ser o "jogo do título" para o FC Porto, no sentido desta viagem a Braga ser, em tese, o grande desafio que tem no trilho até ao seu final.
Farioli está consciente disso, mas, neste caso, acredito, de início, na versão do "FC Porto pressionante". O SC Braga vai querer a propriedade privada da bola e passear com ela.
Posto assim, pode ser um jogo de contra-ataque (com transições rápidas pós-recuperação) contra ataque continuado (com circulação de bola, atrair num flanco para entrar pelo outro até rematar).
As identidades, quase opostas, destas equipas fazem o seu poder, mas, em muitos casos, condicionam o poder estratégico que, acredito, ambos os treinadores gostariam de ter mais em jogos destes.
