O Princípio da Realidade
Na anterior edição do JT, não pude deixar de notar com júbilo a notícia sobre a formação de um núcleo intermunicipal Entroncamento-Torres Novas, do partido Livre. Declaração de desinteresse: não tenho partido e, para o caso, é irrelevante o partido em questão.
Leio a notícia e veio-me à cabeça esta frase que vi há tempos numa rua e logo me apoquentou. Raios, não haverá mesmo nada de melhor para preencher o tempo em que por cá andamos? Depende. Uma pessoa namora a Maria Vieira. Acorda de manhã e descobre que esteve a sonhar. Neste caso, olha para a realidade e apaixona-se logo por ela. Mas se pensarmos na realidade social e política, seja esta regional, nacional ou internacional, fica-se logo com vontade de ir ao cinema ou mergulhar num romance. Não há volta a dar, 10 minutos de telejornal ou uma vista de olhos pelos jornais e logo se percebe que viver agarrado à realidade é tão apaixonante como um Estrela da Amadora-Arouca numa tarde de domingo com 35 graus.
Não que a realidade seja necessariamente tão dramática como namorar a Maria Vieira. Na maioria das vezes é só mesmo aborrecida ou desinteressante. Seja como for, o seu excessivo consumo só pode deixar amolgadelas nas circunvoluções cerebrais. Fosse eu submetido a tal provação e o que me passaria pela cabeça seria acabar como a Ofélia de John Everett Millais, purificando os sentidos com as ervas, flores, o coaxar das rãs e os zumbidos dos abelhões.
Suponhamos que o mundo é um daqueles centros comerciais com 10 salas de cinema e queremos ver um filme. Alguém vai escolhê-lo só porque é baseado em pessoas reais? Imagine-se um triângulo amoroso entre Costa, von der Leyen e Kaja Kallas, tipo Instinto Fatal, Atracção Fatal ou qualquer outra coisa acabada em Fatal. Num ápice, o espectador chegaria com os dedos ao fundo do balde das pipocas só para que a bovina mastigação o impedisse de bocejar. Ou ainda um filme de acção cujos heróis fossem a dupla Luís Montenegro e José Luís Carneiro a tentar salvar Andreia Galvão das garras de Pedro Frazão. Só de pensar nisso sinto saudades do Rambo IV, apesar do veterinário até ter perfil para um fascinante papel de psicopata. Grande aficionado da tourada, bem poderia entrar num Salero ou os 120 dias de Roma, cujo centro é o Coliseu transformado num local lúdico onde o povo ululante se diverte com imigrantes torturados por polícias sádicos. Ok, melhora um pouco, mas ainda assim continuo a preferir o Hannibal Lecter.
Mas pronto, a realidade é o que é, não há outra, e, dê lá por onde der, é nela que temos de viver. Convém ainda lembrar que o homem é um animal político, e embora alguns bem se esforcem para pender mais para o lado animal do que político, será sempre no seio da polis que se pode incutir racionalidade nas nossas vidas, fazendo com que real e racional tenham a bondade de poderem de vez em quando coincidir.
Em suma: é preciso gente para pôr a realidade a funcionar, já que ela não........
