menu_open Columnists
We use cookies to provide some features and experiences in QOSHE

More information  .  Close

Cinco anos depois de Cabul, o Afeganistão continua à espera

11 0
04.09.2026

Este verão, em Palermo, o meu filho e eu tropeçámos no Afeganistão, no meio da Sicília. Num mercado ao ar livre no centro da cidade, rodeado pelas bancas e estabelecimentos de comida que tornam Palermo inconfundivelmente siciliano, encontrava-se um modesto restaurante afegão, algo desenquadrado do meio envolvente. Parámos, falámos em farsi com o dono e tivemos um almoço maravilhoso. Durante algum tempo, milhares de quilómetros e vários mundos esvaneceram-se.

Foi um breve encontro, mas tenho pensado nisso repetidamente desde então. O Afeganistão a particularidade de desaparecer do nosso radar até que alguma coisa, situação, nos recorda a sua existência.

Há cinco anos, em agosto, era impossível desviar o olhar. A 15 de agosto de 2021, os talibãs entraram em Cabul quando os Estados Unidos e os seus aliados da NATO se retiraram, pondo fim a duas décadas de intervenção do Ocidente. De uma forma abrupta e humilhante. As imagens permanecem entre as mais reconhecíveis do século: famílias junto aos portões do aeroporto de Cabul, pessoas a correr pela pista, outras, desesperadas. Tentavam agarrar-se aos aviões prontos a descolar.

Durante alguns dias, o Afeganistão esteve no centro das atenções em todo o mundo. Cinco anos depois, desapareceu de grande parte dos nossos ecrãs.

A jornalista italiana Silvia Boccardi, que regressou recentemente ao Afeganistão, descreve a estranha normalidade do aeroporto de Cabul: pessoas a recolher a sua bagagem, pessoas à espera de familiares, outras a negociar uma corrida de táxi enquanto os aviões chegavam e partiam. O aeroporto, símbolo do estrondoso colapso da presença ocidental, retomou o seu normal funcionamento. A crise não terminou quando as câmaras saíram, passou, simplesmente, a ser menos visível, dispersa por salas de aula, hospitais, locais de trabalho e no espaço doméstico.

Para milhões de afegãos, especialmente mulheres e raparigas, as consequências dessa retirada tornaram-se progressivamente mais profundas. O Afeganistão continua a ser o único país do mundo onde raparigas e mulheres são excluídas do ensino secundário e superior. A UNESCO estima que 2,4 milhões de raparigas estão atualmente impedidas de estudar. Cinco anos é um........

© Jornal Económico