O menino colecionador cresceu– mas o epitáfio sou eu
Por pouco, é certo, mas ainda nasci no século passado. Mesmo para muitos dos que nasceram nos inícios do presente, as coleções de brinquedos da McDonald's, incluídos nos menus Happy Meal e quase sempre associadas aos filmes que todas as crianças queriam ver, são símbolo da infância desta nossa geração.
Recentemente, a McDonald's lançou uma campanha que permite, por um valor adicional, incluir nos seus menus uma figura colecionável da série Friends. À primeira vista, esta ideia pode parecer anacrónica: estamos a falar de uma série que estreou em 1994 e terminou em 2004. Em Portugal, passou pela RTP - que originalmente dobrou a série, estando o respetivo vídeo promocional disponível online -, pela SIC Mulher, na década de 2010, e, mais recentemente, pela Star Comedy, permanecendo um sucesso nas plataformas de streaming, especialmente entre jovens adultos.
Mas esta realidade não é exclusivamente portuguesa. Friends continua a ser uma referência cultural incontornável internacionalmente, a ponto de, em 2021, ter sido produzido um episódio especial assistido por milhões de espectadores. Do mesmo modo, a coleção lançada pela McDonald's não é exclusiva do mercado nacional.
Este contexto leva-me a uma conclusão que parece bastante óbvia: estão a vender-nos a possibilidade de recuperar a experiência do Happy Meal, isto é, a sua nostalgia. Inclusive, a refeição é servida numa caixa de cartão, em tudo idêntica à do Happy Meal, exceto nas suas dimensões.
Talvez este produto já não seja tão marcante para as crianças de hoje. Os brinquedos, parece-me, perderam a sua centralidade, e as novas tecnologias fragmentaram não só as referências culturais, como a forma de as experienciar. O Happy Meal não parece ter relevância nem ser publicitado como antes, talvez porque também já não sejamos o seu público-alvo. Mas estes brinquedos permanecem um marco geracional para quem tem mais ou menos a minha idade - basta ver a popularidade de contas nas redes sociais dedicadas a recordar as suas coleções mais icónicas.
As crianças que, nos anos 2000, colecionavam brinquedos do Happy Meal com o dinheiro dos pais, ainda sem idade para acompanhar Friends, são hoje adultos com carreiras, salários e, claro, poder de compra, que mantêm viva a popularidade de uma série que terminou há mais de 20 anos. Se anteriormente escrevi sobre a existência de um preço para a nostalgia, agora reforço a ideia: como alguém me disse há dias, "os adultos são crianças com dinheiro"; e as marcas sabem-no.
