Tudo, em todo o lado, ao mesmo tempo (I)
Permita-me o leitor do JN que dedique esta série de três artigos ao grande pensador do século XX Edgar Morin que faleceu no passado dia 29 de maio em Paris com 104 anos. Os seus escritos vão ficar e serão para todos nós uma fonte de inspiração permanente.
O título do filme de Daniel Kwan e Daniel Scheinert (2022), "Tudo em todo o lado ao mesmo tempo" ilustra bem o tempo histórico e cultural em que vivemos. Nesta pequena série de três artigos farei uma breve incursão por este mantra dos tempos atuais.
Na aldeia global em que vivemos, tudo, está em todo o lado, ao mesmo tempo. Nas palavras do filósofo Paul Virilio a ciência da velocidade aproxima-nos do desastre. O menu é conhecido: ciência dos dados, digitalização, realidade aumentada, automação, internet dos objetos, protocolo algorítmico, inteligência artificial, modelos de linguagem, ambientes imersivos, computação avançada, plataformas e aplicações para todos os gostos. Este é, por isso, um tempo de multirrisco e policrise. Basta olhar à nossa volta. A colisão está sempre iminente. Agora que se fala tanto em máquinas e veículos autónomos, inteligência artificial e modelos de linguagem cada vez mais sofisticados onde tudo, ou quase tudo, pode ser mimetizado, parece-me avisado voltar à base do conhecimento geral. E a base do conhecimento geral é a cultura, em sentido amplo, socioeducativo, sociocultural e socio-antropológico como infraestrutura interpretativa geral. E ao dizer isto desta forma, eu considero que a cultura geral faz convergir três grandes campos do conhecimento, a saber, o património e a paisagem (a presença da memória e das pré-existências), a ciência e tecnologia (a promessa de futuro), a arte e a cultura (o espírito crítico, imaginação e utopia). E ao dizer isto desta forma, eu estou, desde logo, a criar as condições para uma teoria narrativa plena de sentido e direção, uma espécie de retaguarda histórico-epistemológica para os modelos artificiais de linguagem aplicados que nos reduzem a realidade, o imaginário e o simbólico.
A cultura como infraestrutura interpretativa geral coloca-nos na seta do tempo, um tempo contextualizado, que nos revela uma espécie de operador multifunções que nos reintroduz à complexidade da vida. Sabemos que........
