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O intervalo na guerra

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11.04.2026

Os de meia-idade lembram-se dos telefonemas de Raul Solnado para o inimigo ou da sua experiência como militar improvisado. Era uma espécie de ‘Gozar com Quem Trabalha’, em versão a preto e branco.

Descobrimos agora que essas rábulas chegaram muito à frente. Foram gravadas nos anos 60 e mostravam um ingénuo e frágil soldado a telefonar ao inimigo a pedir informações sobre a hora do ataque e outros segredos.

Por estes dias, assistimos a algo do género. Terça-feira, o todo-poderoso presidente dos Estados Unidos da América anunciou uma decisão: “Uma civilização inteira morrerá esta noite”. Disse e escreveu Donald Trump, assim como quem escolhe entre carne ou peixe para o jantar.

A ameaça, de tão grave e inesperada, correu mundo. Fez títulos em todos os órgãos de comunicação social e perturbou pessoas, daquelas que ainda acham que isto não basta andar aos tiros e a lançar drones, bombas e mísseis.

O espanto durou apenas algumas horas, menos de um dia. Nessa mesma noite de terça-feira, quando se mudava de canal para ver a guerra em direto, os portugueses – e todos os outros, em todo o mundo – viram que, afinal, não havia guerra nessa noite no Irão. Nem nessa, nem nas seguintes e que ontem seria assinado um acordo de dez pontos. Um deles determinava um intervalo na guerra por duas semanas. Assim, como fazia Raul Solnado.

A parte séria desta tragicomédia foi nessa mesma noite denunciada e mostrava, com maior ou menor clareza, que a grande ameaça de Trump fora, ao mesmo tempo, um grande sinal da sua fraqueza, da fraqueza dos Estados Unidos.

O mesmo Presidente que anunciara a morte de uma civilização inteira, tentou fazer crer que o acordo seria uma vitória esmagadora dos Estados Unidos. Tal como fez Israel.

Quando um país grande e rico anuncia uma vitória sobre um país pobre, invertem-se os papéis. O pobre virou a mesa e travou o rico.

Entretanto, saltam à vista dois detalhes: perdemos todos a oportunidade de corrigir um regime perigoso como o do Irão e cidadãos de todo o mundo são chamados a pagar ‘esforços de guerra’.

Com este novo contexto beligerante, os serões dos portugueses mudaram bastante nos últimos anos.

Nas décadas de 80 e 90, eram claramente dominados pelas novelas brasileiras. Quem não se lembra de Gabriela ou Roque Santeiro?

Depois vieram outras telenovelas, as portuguesas. E, mais tarde, a novela da vida real, o famoso Big Brother, que dura até hoje, mas sem o fulgor das primeiras edições.

Mais recentemente assistimos ao crescimento dos canais e programas desportivos com comentadores que são, ao mesmo tempo, imparciais analistas e ferrenhos adeptos. O mesmo aconteceu com a política, recheada de comentário feito de militantes mais ou menos encartados.

E agora entrámos na era dos generais e dos comentadores de política internacional a relatar estratégias de guerra em direto.

A oferta é garantidamente superior à procura. Com este painel deprimente a repetir-se meses a fio, o melhor será voltar às telenovelas. Pelo menos enquanto a guerra vai para férias da Páscoa.


© JM Madeira